Uma “Estória” do Cinema

O Canal Curta! começa a exibir nesta quarta-feira, 27/3, no horário de 22h45, a série A HISTÓRIA DO CINEMA – UMA ODISSEIA, trabalho de fôlego do cineasta norte-irlandês Mark Cousins. A tradução brasileira perdeu uma sutileza essencial do título original The Story of Film – An Odyssey. O termo “story” em lugar de “history” é menos pretensioso e abre margem de liberdade.   

Já no prólogo do primeiro episódio, o diretor-narrador faz sua profissão de fé no cinema como “máquina de empatia”. O cinema, segundo ele, não é movido pelo dinheiro, nem pelo showbiz, mas por ideias e paixão.

Embora descreva a aventura do cinema seguindo uma cronologia e com atenção aos momentos definidores, Cousins fugiu a uma abordagem didática careta. Os dois episódios a que já assisti são ensaios com recortes bem definidos, afirmações intrépidas e comentários irreverentes. Outro diferencial em relação a programas norte-americanos ou ingleses sobre o assunto é que Cousins dá peso importante também aos cinemas asiático, africano, latino-americano e da Oceania. Los Angeles e Dakar se equivalem na sua “estoriografia”.

O primeiro episódio, que vai ao ar nesta quarta, trata das duas primeiras décadas do cinema. Apesar da natural proeminência das experiências pioneiras na França e nos EUA, têm destaque também os filmes de Victor Sjöstrom na Suécia e Benjamin Christensen na Dinamarca.

Cruzando sempre o tempo entre a virada dos séculos 19/20 e a atualidade, o programa apresenta o nascimento da linguagem cinematográfica. Detalha o surgimento de recursos como o close, a trucagem, a tomada em movimento, a narrativa em continuidade e a narrativa paralela, a tela panorâmica, o jump cut (corte dentro de uma mesma tomada) e o estrelato.

As imagens ilustram com perspicácia a argumentação de Cousins, que por sua vez destila um humor e uma retórica de entretenimento inteligente.

Nos episódios seguintes, a série vai discorrer sobre o surgimento de Hollywood, o advento do som, o cinema do pós-guerra, e seguindo em frente até a revolução digital no século XXI. Desses eu já vi somente o episódio 12, que se ocupa dos anos 1980. Aqui a escolha de Cousins recaiu sobre o cinema de contestação ao poder surgido naquela década em diversas latitudes.

A 5ª Geração do cinema chinês (Chen Kaige, Zhang Yimou, Tian Zhuangzhuang) aparece no momento em que o taoísmo enfrentou o maoísmo e o indivíduo ganhou espaço sobre os temas coletivos. Os soviéticos anti-stalinistas (Elem Klimov, Tengiz Abuladze) brilharam no contexto da Perestroika. Kieslowski pintou a desilusão da Polônia e Almodóvar, a movida madrilenha que soterrou a herança franquista. Gaston Kaboré na África, Derek Jarman e Stephen Frears na Inglaterra e David Lynch, Spike Lee e John Sayles nos EUA romperam padrões de produção e pensamento no cinema de seus respectivos países.

A concepção de política e protesto de Mark Cousins é suficientemente ampla para incluir, nos anos 1980, filmes de Peter Greenaway, Victor Erice e dos pós-modernos Besson e Carax na França. A noção de crítica ao poder se estende, aí, ao poder das narrativas hegemônicas, a Hollywood e aos imperativos de um cinema de consumo veloz. Essa “Estória do Cinema” traz no seu DNA o germe da inconformidade.

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