No olho do furacão venezuelano

Enquanto a Venezuela resiste à sabotagem internacional de seu governo legítimo e a uma tentativa de golpe da oposição, é boa hora de assistir ao magnífico documentário A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA, que registrou situação semelhante em 2002 com Hugo Chávez. 

A frase mais repetida a respeito de A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA (Chavez: Inside the Coup) é que os documentaristas irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain estavam no lugar certo na hora certa. Faltou dizer que estavam praticamente invisíveis para flagrar a queda consecutiva de dois governos sem arredar pé do Palácio Miraflores. Não existe outro documentário como este.

Foi em abril de 2002, quando Hugo Chávez consolidava sua “revolução” bolivariana na Venezuela, com amplo apoio popular, e intervinha na companhia estatal de petróleo para derrubar velhos privilégios e acabar com a corrupção. Kim e Donnacha estavam há nove meses rodando um documentário sobre essa experiência quando uma marcha da oposição se dirigiu ao palácio e a resistência chavista começou a ser atingida por tiros de snipers.

Houve reação, que a TV privada explorou à exaustão, criando uma atmosfera de massacre. Chefes militares ligados às oligarquias precipitaram um golpe de estado, que não duraria mais de 48 horas. Os eleitores de Chávez cercaram Miraflores, as tropas leais retomaram o poder e o presidente retornou ao seu posto, onde ficou até a morte, em 2013. Ao entrar de volta no palácio, Chávez se dirige à câmera de Kim e Donnacha: “Não me despedi de vocês porque sabia que voltaríamos”.

Mais que um acesso espetacular, o filme se beneficiou de uma quase invisibilidade para registrar, passo a passo, os intestinos de um golpe. Embora simpáticos aos chavistas, os realizadores não saíram com eles. Permaneceram filmando a instalação do novo governo, os momentos de tensão e júbilo de cada lado, até a inversão dos papéis ao fim do episódio. Temos, assim, uma visão praticamente didática da sequência de acontecimentos. O arco dramático é inacreditável: vemos os mesmos personagens entrarem no palácio em confraternização e saírem dois dias depois transfigurados pela derrota. E vice-versa com os ministros e auxiliares diretos de Chávez.

O filme incorpora também materiais filmados nas ruas, que testemunham a indignação dos populares com o golpe dos oligarcas. Numa cena que Eisenstein invejaria, a câmera flagra o braço erguido de um soldado solidário à massa que grita por Chávez diante dos portões do palácio, antes mesmo do contragolpe.

Quando passou no festival É Tudo Verdade de 2008, A Revolução Não Será Televisionada integrava uma retrospectiva de “filmes que mudaram o mundo”. Afinal, em que esse documentário “mudou o mundo”? Na verdade, nada. O que mudou a situação em Caracas foi mesmo o povo. Na mídia, porém, o filme desmentiu as imagens manipuladas pela TV privada venezuelana, que tinham atraído apoio inicial ao golpe anti-Chávez. Nas cenas do confronto na ponte Llaguno, o filme revelou uma tomada omitida pelas TVs privadas, que inverte o sentido do que fora divulgado.

Antes mesmo do golpe, Kim Bartley e Donnacha O’Briain já haviam coletado material suficiente para contextualizar as forças em luta na Venezuela. De um lado, por exemplo, estava Chávez falando de seus antepassados em tom legendário, ou seja, identificando-se com uma Venezuela mítica e guerreira. De outro, reuniões de classe média/alta em que se alertava até mesmo para o perigo representado pelos empregados domésticos. E uma TV privada que acusava Chávez de insanidade e mesmo, em tom de chacota, de um caso gay com Fidel.

A Revolução Não Será Televisionada não esconde nem disfarça sua opção pelo lado chavista. Na época, foi retirado de festivais e da programação de TVs por ingerência da oposição venezuelana e de suas ramificações internacionais. Por outro lado, estimulou uma resistência da mídia de esquerda latino-americana e passou às antologias como uma radiografia do olho do furacão.

O filme está legendado no Youtube, em cópia de baixa qualidade mas assistível:

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