Perversão do erotismo

O ANJO

O ANJO é um filme sujeito a ser mal compreendido. O amoralismo com que trata seus personagens pode ser confundido com condescendência em relação ao crime. Mas se levarmos em conta que esse distanciamento moral é uma maneira de tornar a trajetória de Carlos Robledo ainda mais espantosa, o filme de Luis Ortega se mostra não menos que eletrizante.

Baseado livremente no caso real de um ladrão e assassino preso em 1972 e ainda hoje cumprindo pena recorde na Argentina, O ANJO conta uma história cheia de um erotismo que fica aquém do sexo. Apesar da atração que rola entre Carlos (Lorenzo Ferro) e Ramón (Chino Darín), esse erotismo se manifesta mais nas ambiguidades de caráter, na convivência fetichista com o perigo, na violência repentina e “inocente” (não propriamente cruel) do anjo louro e na relação sensual entre os corpos e os ambientes magnificamente cenografados em que circulam.

A coprodução é dos irmãos Almodóvar, mas a influência de Scorsese se faz sentir com mais vigor. O hedonismo de Carlos, sua indiferença pelos outros e por si mesmo, sua confiança doentia na força do destino fazem dele um personagem scorseseano em alguma medida. A inteligência do roteiro se mede pela ausência de qualquer obviedade e pela constante imprevisibilidade. Atualmente não são muitos os filmes consumíveis como esse que nos deixam um ponto de interrogação ao final de cada sequência.

Não há um grande compromisso com a verossimilhança das ações, que obedecem a um certo código de fantasia criminal. Isso só acrescenta ao caráter provocativo e estranhamente fascinante desse estudo do Mal com face angelical. Impecável em matéria de direção, produção, fotografia, montagem, atuações, direção de arte e trilha musical (com algumas versões impagáveis de canções estrangeiras), O ANJO me pareceu um dos grandes filmes do ano.

2 comentários sobre “Perversão do erotismo

  1. Totalmente de acordo, Carlos. O filme é desconcertante não por eventuais problemas, pelo contrário, mas por sua magnífica realização e atuação. Lorenzo Ferro é um ator excepcional. Essa amoralidade e psicopatia do protagonista, podem ser vistas, tal como você diz, como um estudo do Mal. Porém, se levarmos em conta o universo, o meio social e a sociedade onde tudo ocorre, podemos entender o “Anjo” como de fato um anjo pois nele não parece haver qualquer laivo de consciência, contrariamente aos personagens que o cercam.

    • Esse traço é realmente definidor do personagem. A falta de consciência é que leva à ausência de crueldade que eu mencionei. O Mal inocente, pois ele existe…

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