O velho, de novo

A GRANDE DAMA DO CINEMA

Humor negro, sátira ao firmamento das estrelas de cinema, crítica à ganância dos empreendedores imobiliários e melodrama decrépito se esbarram no novo filme de Juan José Campanella. O “Fernando Meirelles” argentino, que nos deu o delicioso O Segredo dos seus Olhos e os muito simpáticos Clube da Lua, O Filho da Noiva e Um Time Show de Bola, volta a interromper sua carreira nas séries de TV para divertir-se com o “velho cinema”.

A GRANDE DAMA DO CINEMA é uma refilmagem da comédia Los Muchachos de Antes no Usaban Arsénico (1976), em que uma ex-diva do cinema pretendia eliminar seu marido, seu médico e seu administrador para poder vender a mansão longínqua onde todos moravam e voltar às luzes de Buenos Aires. Campanella trocou os dois últimos personagens por um diretor e um roteirista para ampliar o lote de referências ao cinema pré-ditadura.

A trama, bastante tortuosa e inverossímil, se ampara numa exagerada boa-fé da veterana Mara Ordaz (Graciela Borges) perante dois jovens admiradores que invadem sua célula nostálgica e não tardarão a mostrar quem realmente são. Fruto dessa influência, aos poucos, a troca de brincadeiras ácidas entre os velhos vai dando lugar às amarguras do passado e a temperos de comédia policial.

Alusões a Crepúsculo dos Deuses, O que Terá Acontecido a Baby Jane, Jogo Mortal e outros clássicos não disfarçam o anacronismo do filme, que funciona ora como uma máquina de frases de efeito supostamente cômico, ora como um dramalhão soporífero. O confronto entre jovens e velhos, metaforizado em lances de sinuca e xadrez, soa por demais esquemático, enquanto a resolução em clima de pastelão me decepcionou mortalmente.

As cenas de Graciela tentando uma sedução tardia sobre o marido (Luis Brandoni) estão entre os poucos momentos de eficácia, que dependem sobretudo do conjunto do elenco maduro, que inclui também Oscar Martínez e Marcos Mundstock. Mas Campanella mostra mão pesada demais para espanar a poeira que os anos depositaram neste projeto. Muito apropriadamente, alguém faz a seguinte digressão: “Se os filmes, que são feitos de plástico, envelhecem, que dirá o amor, que é feito de intenções”. Ao contrário de qualquer amor, que ao nascer é sempre novo, há filmes, como esse, que já nascem velhos.

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