Transplante de personagens

DIAS VAZIOS

Entre os supostos desígnios de Deus e o livre arbítrio, entre a apatia e o desejo de evasão, entre a realidade de uma cidade morta do interior de Goiás e a criação ficcional – aí se encontram enredados os personagens de DIAS VAZIOS. O suicídio de Jean (Vinícius Queiroz) e o desaparecimento de sua namorada, Fabiana (Nayara Tavares), surte um efeito depressivo sobre o colega de ensino médio Daniel (Arthur Ávila), que há dois anos está escrevendo um livro sobre os dois. Alanis (Natália Dantas), namorada de Daniel, é sua primeira leitora e tenta resgatá-lo do poço da melancolia.

Desde as primeiras cenas fica patente que estamos diante de um filme de escrita sofisticada, que não se furta aos enigmas trazidos do premiado romance de André de Leones, Hoje Está um Dia Morto. Na pequena cidade de Silvânia, sempre deserta e coberta por um céu plúmbeo, os jovens sonham em ir embora e ver o mar. O colégio de freiras parece menos opressivo do que se sugere (até a madre superiora, interpretada por Carla Ribas, fuma), mas a abundância de signos religiosos oprime e sufoca como a onipresença de Deus. O quarteto principal se coloca à parte do resto do grupo, parecendo condensar em si todas as dores da adolescência.

DIAS VAZIOS seria apenas mais um filme sobre angústias juvenis não fosse a fina elaboração de sua trama psicológica. Enquanto Daniel tenta encontrar um desfecho para a personagem de Fabiana no seu livro, ele e Alanis transitam entre o plano objetivo e as apropriações do outro casal dentro do romance. Os revólveres, a fantasia de Super-Homem e um transplante de coração são elementos de um labirinto nem sempre fácil de percorrer.

Os ecos de uns personagens sobre outros se dão através de referências e diálogos repetidos, como nos filmes do coreano Hong Sang-soo. Embora algumas pontas possam ficar meio soltas, é notável o domínio do diretor goiano Robney Bruno Almeida, estreante em longas, sobre a dramaturgia e a estética do filme. Ele teve a coragem de permitir os tempos longos que passam a sensação de vácuo e ancoram o sentimento da cidade na consciência dos meninos. Os atores, preparados por Fátima Toledo, respondem com extraordinária precisão ao desafio de atuar em tom menor e longe dos clichês do gênero “filme de escola”. Fotografia e montagem de excelência contribuem para uma linguagem contemporânea como pouco se vê em filmes fora do eixo de produção mais regular.

DIAS VAZIOS é, enfim, um filme absorvente e criativo sobre a estreiteza da vida provinciana e a amplidão da criação literária. Mesmo que o desconsolo a tudo envolva como uma longa tarde enevoada.

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