A exploração das bruxas

EU NÃO SOU UMA BRUXANa África tradicional, a crença nas bruxas é um dado ambivalente, que tanto opera para o Bem como para o Mal. Elas podem ser malditas e perseguidas, como também cultuadas por seus supostos poderes. A coprodução de Zâmbia e Inglaterra EU NÃO SOU UMA BRUXA traz uma visão ainda mais intrigante dessa realidade: bruxas exploradas pelo governo e por um subcapitalismo arcaico.

Consta que em Zâmbia e Gana existem de fato campos de concentração de bruxas como os que vemos no filme de estreia de Rungano Nyoni, diretor nascido em Zâmbia e criado no País de Gales. Na primeira sequência, um ônibus de turismo chega a um desses campos, onde senhoras são expostas à visitação como bruxas, em situação semelhante à de um zoológico. Mais adiante, elas serão vistas trabalhando como escravas na lavoura e na extração de pedras, atadas a fitas pelas costas para que não se evadam e “saiam por aí matando as pessoas”.Esse conto terrível de misoginia vai se particularizar em torno da pequena e abúlica Shula (Maggie Mulubwa), acusada de bruxaria por eventos banais como presenciar a queda de uma mulher ou ser vista no sonho de um homem cortando o seu braço. Shula vira uma espécie de mascote do pitoresco Ministro do Turismo e das Crenças Tradicionais (Henry B.J. Phiri), que a coloca a serviço de vários interesses do governo local.

A única saída possível para uma bruxa seria a respeitabilidade de um casamento, como explica a esposa do ministro antes que ela mesma demonstre os limites dessa liberdade. Como metáfora da situação da mulher numa Àfrica autoritária e fetichista, essa história pode ser entendida à margem de qualquer bruxaria.

O filme é etnograficamente desconcertante. Usa a comédia para revelar a aliança entre práticas arcaicas e formas de exploração modernas. A tradição é mostrada como lugar do aleatório e da impostura, a exemplo do feiticeiro que dança comicamente enquanto a morte de um galo decide se Shula é ou não uma bruxa. Qualquer sinal de resistência parece vir de fora, de um âmbito mais ligado à modernidade. O poder na aldeia é dividido entre o “governo” e o reino, este ocupado por uma rainha que oprime as mulheres ainda mais que os próprios homens.

Nosso riso é frequentemente travado pela contundência da denúncia e a iminência da tragédia. Se o roteiro fosse menos desengonçado, talvez nos conectássemos ainda mais com a curta e triste saga de Shula. De qualquer forma, é um belo filme, com um forte desempenho de conjunto das mulheres, um aproveitamento surpreendente das Estações de Vivaldi e uma abordagem original de horrores que ainda persistem sob o tacão do dogmatismo.

Aguardem a última imagem para saber em que aposta Rungano Nyoni.

 

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