Alegoria do pequeno que resiste

BACURAU

A ambição de BACURAU se anuncia já na cena de abertura: o planeta Terra é visto de fora, ao som de Gal Costa cantando “Não Identificado”, numa tomada típica de ficção científica. O quadro avança em direção a um ponto do globo até se fundir com a imagem de um caminhão-pipa na estrada que leva a Bacurau. Ambição que vai repercutir em várias esferas do filme, como a fusão de gêneros e a condição de cidade-metáfora de certa conjuntura contemporânea.

Embora o roteiro tenha sido construído ao longo de vários anos, a pequena Bacurau, com sua igreja, sua escola, seu museu histórico e seus habitantes utopicamente irmanados, é facilmente vista agora como representação de uma parte do Brasil que não deveria existir pelos padrões do governo Bolsonaro. É nordestina, multirracial, tolerante na diversidade sexual, destemida e orgulhosa de ser o que é. Para os de fora, contudo, é mero pasto de demagogia política e território de caça. O “cu do mundo”.

Por obra de um arranjo do prefeito do município que a abrange, Bacurau está sendo submetida a um processo de desaparição. Querem transformá-la num objeto não identificado. Desabastecida de água já há algum tempo, acaba de sumir do Google Maps e tem sua energia e seu sinal de internet cortados. Nas redondezas, um grupo de turistas americanos pervertidos, sob a coordenação de um homem de origem alemã (Udo Kier), diverte-se num safári de caça humana e ajusta seu alvo sobre a cidade.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles amealharam diversos sintomas do mal estar global para compor sua parábola da barbárie e da autodefesa. No comportamento dos estrangeiros teleguiados se percebem ecos da guerra do Iraque e traços da supremacia branca e do escárnio trumpista pelas populações periféricas. O casal de sudestinos vivido por Karine Telles e Antonio Saboia, um deles ligado ao poder judiciário, encarna o oportunismo que se vende aos interesses externos.

Por sua vez, os moradores de Bacurau incorporam as forças de resistência inspiradas numa tradição que vem do cangaço e do matriarcado, e se renova com as demandas de representatividade dos tempos atuais. A morte da matriarca negra Carmelita (Lia de Itamaracá) reúne o povo e condensa a liga comunitária. Lunga (Silvero Pereira) é um novo Lampião andrógino que imanta o grupo com sua determinação. A médica local (Sonia Braga) é lésbica. Os recursos usados pelos bacurauenses combinam o tradicional e o moderno – uma planta local fornece alucinógenos contra o medo, enquanto as estratégias de autoproteção se disseminam por celulares que todos têm à mão.

BACURAU é abertamente ambicioso na representação de dicotomias como nacional-estrangeiro, integridade-perversão, comunidade-desintegração. O fato de a escola servir de trincheira e o museu fornecer as armas da resistência alude ao poder da educação e da cultura numa terra em que a imagem da polícia não passa de uma viatura arruinada.

Essa ambição, porém, não deixa de ter seu preço, que é constranger o filme nos limites de uma alegoria. Ao contrário de O Som ao Redor e de Aquarius, filmes que Kleber assinou sozinho, BACURAU não respira com facilidade fora de seu campo estritamente alegórico. O excesso de personagens, nem todos plenamente justificados na dramaturgia, resulta num retrato de cidade nordestina que, por contraditório que seja, lembra algumas antigas novelas de TV. A médica Domingas, a prostituta Sandra e o prefeito Tony Júnior são exemplos de figuras que flertam com estereótipos bem conhecidos.

Transitando entre a ficção científica, o realismo fantástico, o western e a fábula política, o filme manipula valores brutos como a morte de inocentes, o sadismo, o cinismo, o instinto de sobrevivência e a catarse. Tem a inegável virtude de não dourar a pílula, além de um virtuosismo impecável em todos os setores da produção e da realização. É preciso dizer também que BACURAU, com suas arestas e insuficiências, talvez seja o filme que o Brasil – e não só ele – esteja mesmo precisando ver nesse momento de relações humanas e políticas regidas pela estupidez. O Prêmio do Júri em Cannes, para além das óbvias qualidades da obra, diz um pouco desse encaixe nas angústias atuais.

A última cena traz uma voz off enumerando as vítimas dos caçadores, entre as quais aparecem os nomes Marisa Letícia, Marielle e João Pedro Teixeira (o cabra marcado para morrer). A homenagem procura reforçar o vínculo entre o suposto futurismo do enredo e o passado e o presente de um país que, ao contrário da pequena Bacurau, parece se conformar com o destino de ser caça.

 

6 comentários sobre “Alegoria do pequeno que resiste

  1. Carlinhos, só agora tive condições de assistir “Bacurau”! Não por acaso, numa grande tela de um dos poucos e antigos, ainda restantes, “cinemas de rua” de Copacabana, no Rio. O impacto causado pelo filme foi deveras muito forte e não se trata, claro, de nenhuma brincadeira! Filmes dessa estirpe não passam diante de nossos olhos e mentes “às brincas”. Entendi o porquê de não ter sido esse o escolhido para representar o Brasil no “Oscar”: não é pra “inglês (ou americano) ver”! Ao sair, já quase meia-noite, desse espaço que, em outras épocas, era chamado de “casa de espetáculos”, que ainda consegue manter uma certa dignidade e, ao andar pela noite fria e chuvosa na Av.N.Sra de Copacabana, em direção ao meu apartamento, tive, mais uma vez, o constrangedor desprazer de ser testemunha de chocantes cenas tristes e indignas, proporcionadas por centenas de pessoas que não têm onde dormir, entre elas muitas crianças, mulheres e idosos, deitadas nas calçadas, enroladas em panos e trapos que, com certeza, muito pouco aqueciam, “espetáculos esses” que grande parte de nossos compatriotas insiste em fingir que não percebe, mas que vem acontecendo, invariavelmente, cada vez mais, todos dias e noites, na maioria das cidades de nosso País.

  2. Excelente análise desse filme um tanto pertubador e que diz muito do Brasil atual. Quisera que a população pudesse se organizar como o povoado de Bacurau para lutar pelo seu direito a uma existência digna.

  3. Carlinhos, estava ansioso aguardando seu olhar sobre o filme porque, ainda sob impacto do mesmo, senti os mesmos desconfortos com os excessos da alegoria, ao mesmo tempo que um enorme frisson na vingança perpetrada pelos mais fracos contra o império do mal. Básico? Sim, mas humano e visceral em tempos obscurantistas. Um filme que vai causar, tanto na comunidade audiovisual como entre os bárbaros que usurparam o poder no Brasil. Parabéns!

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