México sem saída

CHICUAROTES

Nos momentos mais líricos, CHICUAROTES pode lembrar os dramas periféricos de Pasolini, como Accattone e La Ricotta. Nas passagens mais dramáticas, se aproxima das exacerbações de Iñarritu. Entre esses dois pólos, o segundo longa dirigido por Gael García Bernal traça um perfil áspero do subúrbio de San Gregorio Atlapulco, na Cidade do México, cujos habitantes são apelidados de “chicuarotes”, alusão a uma pimenta muito forte e dura plantada naquela área.

A pobreza e a brutalidade, combinadas, criam um beco sem saída para os adolescentes Cagalera (Benny Emanuel) e Moloteco (Gabriel Carbajal). A primeira sequência é exemplar da situação: vestidos de palhaços, eles pedem dinheiro num ônibus. Diante da indiferença geral, partem para uma exigência bem mais agressiva. O hiperativo e imprudente Cagalera e o tímido e compassivo Moloteco formam uma dupla memorável enquanto escalam degraus da criminalidade e, munidos de uma ingênua e falsa esperteza, tentam driblar adultos abusivos e violentos .

Bernal dirige com mão firme um roteiro escrito há 13 anos por Augusto Mendoza. O humor incômodo dos dois primeiros atos não deixa de anunciar o fatalismo trágico que advirá para os personagens. Cagalera se lança num golpe decisivo para tentar fugir daquele lugar, sonho encapsulado numa caixa de fósforos com a marca de Las Vegas. A câmera na mão e o ritmo acelerado dão um sentido de urgência à narrativa, mas cedem também a interlúdios onde a humanidade dos jovens vem à tona com alguma poesia. O uso das locações, a boa sugestão de ambientes e o colorido da linguagem popular são outros pontos de destaque.

O roteiro é engenhoso na criação de variantes originais para temas clássicos como a corrupção policial, o sequestro e o roubo de loja. Pequenas incongruências, como a repentina submissão do hediondo pai de Cagalera à mulher, e uma impressão de exagero na reação da turba ao comando do açougueiro não prejudicam muito a eficácia de um filme capaz de persistir por um bom tempo na memória.

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