Entre charutos e suásticas

A TABACARIA

As sinopses oficiais de A TABACARIA destacam a amizade entre o jovem Franz e Sigmund Freud. Mas essa é apenas uma – e não a mais importante – das três linhas narrativas do filme de Nikolaus Leytner. Franz emigra de um local idílico no interior da Áustria para Viena à época da ascensão do nazismo e vai conhecer de perto a violência contra socialistas, judeus e os que os toleram. O rapaz chega com a libido à flor da pele e terá uma iniciação amorosa traumática.

Costurar esses três vetores de maneira orgânica, a partir do desejo, dos sonhos e da tomada de consciência de Franz, é uma qualidade do roteiro, baseado no best-seller Der Trafikant, de Robert Seethaler (trafikant, na Áustria, é dono ou vendedor de tabacaria). O texto publicitário na caixa de charutos cubanos (forma fálica) sintetiza a equação: “Feitos por homens corajosos e enrolados nas coxas de belas mulheres”.

Freud não explica no filme, mas o cândido (a princípio) Franz está em busca de um pai cuja companhia não teve e de uma mulher que se parecesse com sua fogosa mãe. O primeiro, ele encontra no próprio Freud e no patrão, o dono da tabacaria, um mutilado da I Guerra que se opõe à extrema-direita. A segunda toma a forma de uma moça atraente que lhe desperta imediata paixão. A descoberta do horror nazista – a realidade anunciada já na chegada à estação de trem – completa sua formação e sela seu destino.

Os cuidados com a reconstituição de época em estúdio e com a boa atuação do elenco são outras virtudes do filme, mas que não disfarçam os seus pontos fracos. Um recurso recorrente e irritante são as reações imaginárias de Franz, que a todo momento interrompem a narrativa realista com uma “pegadinha” para o público. Como representação da vontade reprimida, são primárias e repetitivas. Da mesma forma, os muitos sonhos com água e vertigens, e a presença surreal de insetos parecem gratuitos, uma vez que não ecoam, como era de se prever, na relação do garoto com as teorias de Freud.

O pai da psicanálise é interpretado com discrição por Bruno Ganz, que lamentavelmente ficou marcado pelo Hitler de A Queda e todos os seus memes. Quando a perseguição antissemita enfim o atinge, é como se víssemos um personagem de Ganz se voltar contra o outro.

A TABACARIA é bem intencionado e obediente às convenções do romance de formação. Se não alcança um patamar superior é por tratar seus temas com superficialidade e não oferecer um traço de distinção especial.

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