Neuróticas de guerra

UMA MULHER ALTA

UMA MULHER ALTA dispensa o caráter usualmente masculino dos filmes de guerra para narrar os dramas de duas mulheres russas no imediato pós-II Guerra, numa Leningrado ainda abalada por dois anos e meio de cerco dos nazistas. O diretor Kantemir Balagov inspirou-se no romance A Guerra não Tem Rosto de Mulher, de Svetlana Alexievich. Como no seu filme anterior, o também intenso Tesnota, a condição feminina está no centro.

A longilínea Iya (Viktoria Miroshnichenko), apelidada “Grandona” (tradução melhor seria “Varapau”, como no título original Dylda) deixou o front traumatizada por uma concussão que lhe provoca frequentes estados de catatonia momentânea. Numa dessas crises, Iya acaba cometendo involuntariamente um ato terrível, que lhe deixa em dívida para com a amiga Masha (Vasilisa Perelygina). Esta, por sua vez, voltou da guerra com ferimentos internos que lhe impedem de procriar. A relação neurótica das duas oscila entre a dependência mútua e o domínio psicológico, a ponto de Iya sacrificar sua rejeição ao sexo para ajudar Masha em sua obsessão maternal.

O ambiente é denso e doentio. Todos os personagens se relacionam com um hospital em que enfermos terminais costumam ser ajudados a morrer. Embora se fale insistentemente em iniciar uma vida pacífica, os ecos da guerra ainda tornam tudo sombrio e com cheiro de morte. A ideia de um recomeço fica mais na esfera das vontades e das ilusões que propriamente de fatos. Um sabor tchekhoviano não é estranho à dança de desejos e frustrações dessas duas quase irmãs.

Balagov trabalha com lentidão e rigor quase ascético. Algumas cenas são memoráveis em sua dura beleza, como a da morte de uma criança, um agoniante encontro sexual de Iya e o diálogo entre Masha e a mãe de um jovem pretendente da elite. Visualmente, o filme é magnetizante com sua paleta de dourados e verdes, na qual os vermelhos começam a se insinuar à medida que a partitura dramática se aproxima das notas mais altas.

Como representante da Rússia na corrida pelo agora chamado Oscar internacional, UMA MULHER ALTA chega bem cotado, mas não creio que seu ritmo um tanto pastoso e a overdose de neuroses na amizade entre Iya e Masha seduzam grande parte dos votantes. Para mim, a excepcionalidade do filme está mais na estética e realização do que na substância de seu material.

 

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