Palestino, um perfeito estranho

O PARAÍSO DEVE SER AQUI

O palestino Elia Suleiman é talvez o único praticante da comédia muda em atividade. Uma espécie de Buster Keaton parado e metódico, ele está invariavelmente no centro da tela dos seus filmes, em posição totêmica, dirigindo com o olhar a montagem do que vemos ao seu redor. Em O PARAÍSO DEVE SER AQUI (It Must Be Heaven), radicaliza esse lugar de observador impávido, limitando-se a proferir duas frases em todo o filme e nenhum sorriso.

Eventualmente, percebemos que seu personagem é um cineasta palestino que deixa sua Nazaré natal para tentar fechar um novo projeto e participar de algum debate no exterior. Antes de viajar, o vemos às voltas com vizinhos que roubam seu tempo e os limões do seu quintal. Em sketches independentes, muitos deles de puro nonsense, ele pontua estereótipos palestinos, como a intolerância nos hábitos familiares e a vacuidade de posturas religiosas ortodoxas.

Essa mesma visão de mundo, pautada pelos estereótipos, ele transfere quando se desloca para outras terras. Paris, por exemplo, lhe aparece como um contínuo desfile de moda, rondas policiais coreográficas e assistência de primeira classe a mendigos nas ruas. Já Nova York é uma cidade onde todos (até crianças) têm porte de arma ou se vestem como num baile à fantasia. Como um “perfect stranger”, Elia ronda por esses cenários, costurando com o olhar gags aparentemente sem sentido, mas que trazem um tanto do humor que ele herdou de Jacques Tati.

O espectador disposto para esse tipo de comédia lacônica é razoavelmente gratificado. O que falta ao filme é uma postura mais clara e aguda perante aquilo que pretende comentar: a condição do palestino como “perfeito estranho” (ou estrangeiro), as relações de desigualdade, os preconceitos e o racismo inerentes ao funcionamento das sociedades ocidentais.

Numa cena, Elia encontra-se com Gael Garcia Bernal (também no papel de si mesmo) e é apresentado por ele como “um cineasta palestino, mas que faz filmes engraçados”. Em outra, um produtor recusa seu projeto por não ser “suficientemente palestino”. Talvez os dois tenham razão. O PARAÍSO DEVE SER AQUI é engraçado e muito autoconsciente, mas não transmite uma ideia coesa do que seja, afinal, ser palestino no meio do mundo.

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