A pintora e sua modelo

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS

“Quando você me olha, para quem eu olho?”, pergunta a modelo Héloïse à pintora Marianne num dado momento de RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Portrait de la Jeune Fille en Feu). O filme de Céline Sciamma é um estudo sobre a mútua atração que pode existir entre quem pinta e quem posa. Mas não é só isso. É também um fino olhar feminino sobre a arte e o amor, no qual os homens são meros figurantes ocasionais. E a gente torce mesmo para que nenhum invada a tela e a privacidade daquelas mulheres.

Final do século XVIII. Marianne (Noémie Merlant) chega numa localidade praiana e deserta da Bretanha, contratada para pintar a filha de uma condessa. A lembrança de O Piano, de Jane Campion, nos vem imediatamente – e prossegue, sugerindo uma possível inspiração. O quadro deve ser feito às escondidas para o casamento de Héloïse (Adèle Haenel), que não quer posar. As condições para o matrimônio serão logo reveladas, mas dizem pouco sobre os desejos reprimidos da noiva. Marianne atua, então, como uma provisora de prazeres do mundo: música, leitura, fumo. Um jogo de sedução e dissimulação se estabelece entre as duas, numa das relações mais eróticas – e dolorosas – que o cinema apresentou ultimamente.

Estamos no terreno da observação recíproca e da intuição do desejo. Céline Sciamma tem currículo nessa área, assim como no exame sensível da diversidade de gêneros. Em Tomboy ela dava vida a uma menina que resolvia se apresentar como menino. Em Garotas, uma menina de periferia buscava realização numa gang feminina. Esse RETRATO, para além de sua pungente história de amor, diz também sobre a sororidade que ignora classes e papéis sociais. Naquele pequeno mundo sem machos, a empregada é uma figura de contraponto que apenas sugere a existência de uma realidade binária exterior.

Clássico e elegante em sua feitura, o filme é também exemplarmente seco e grave, fazendo com que a corrente de ternura entre Marianne e Héloïse passe por vias quase subterrâneas, mas nem por isso seja menos tocante. Quanto às pinturas, é pena que em nenhum momento se tenha uma tomada sugerindo que é Noémie quem pinta as telas. As mãos, separadas do corpo, são da pintora Héléne Delmaire.

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