A periferia sem preto no branco

OS MISERÁVEIS

O primeiro grande filme do ano vem de um subúrbio de Paris, Montfermeil, onde Victor Hugo escreveu e localizou a ação de Os Miseráveis. Foi ali também que cresceu, fez carreira e continua vivendo o cineasta Ladj Ly, nascido de pais pobres no Mali. Seu primeiro longa de ficção, OS MISERÁVEIS, transpira um conhecimento profundo da realidade de Montfermeil, o que se pressente em cada cena e cada diálogo. Mais que fazer um drama de ação, Ladj Ly quis criar um retrato complexo da periferia, em que não há lugar para heróis ou vilões.

Entramos naquele universo pelo olhar assustado de Stéphane (Damien Bonnard), policial recém-incorporado à Unidade Anti-crime do bairro e vítima imediata de bullying dos colegas. No transcurso de um dia, ele e nós tomamos conhecimento das ligações heterodoxas existentes entre os vários núcleos de poder do lugar: o prefeito negro autonomeado, os traficantes, a irmandade muçulmana, os ciganos e a própria polícia. O desaparecimento de um filhote de leão do circo dos ciganos vai deslanchar uma sucessão de peripécias e mobilizar todas as forças que promovem e controlam a violência em Montfermeil.

Depois de um primeiro ato de apresentação de personagens e contextos, o ritmo da ação vai se impor de maneira irresistível, mas sem os cacoetes de Hollywood. Ladj Ly demonstra um talento técnico e narrativo invejável, próximo sobretudo de clássicos da dramaturgia periférica, como La Haine, de Mathieu Kassovitz, Infância Roubada, de Gavin Hood, e Cidade de Deus. Talento forjado ali mesmo no subúrbio, no hábito de filmar desde criança e registrar os atritos de rua numa série de documentários que exibiu na internet. Ele integrou desde cedo o coletivo Kourtrajmé, do qual fazia parte também o fotógrafo JR, parceiro de Agnès Varda em Visages, Villages. Em 2005, tematizou a revolta urbana que se seguiu à morte de dois adolescentes eletrocutados ao fugir da polícia em 365 Jours à Clichy-Montfermeil. Em 2013, rodou o curta Les Misérables com o mesmo elenco principal, agora desenvolvido no longa que dividiu o Prêmio do Júri de Cannes com Bacurau e representa a França entre os indicados ao Oscar internacional.

O subúrbio aparece aqui como um barril de pólvora, em que a menor fagulha pode provocar uma explosão. Tiras racistas, religiosos fundamentalistas e crianças cheias de raiva contra a polícia são todos frutos de uma mesma árvore: a violência que se perpetua no preconceito, no desemprego e no abandono do estado, que só olha para a periferia com óculos policiais. Ladj Ly fecha sua argumentação com a frase de Victor Hugo que conclui o filme após uma cena final que nos paralisa e interroga: “Meus amigos, nunca digam que há plantas más ou homens maus. O que há são maus cultivadores”.

O roubo do filhote de leão por um menino – o mesmo visto na abertura do filme, irmanado na multidão que comemora a vitória da França na Copa de 2018 – estilhaça rapidamente a frágil coalizão de Montfermeil. De repente, todos são inimigos de todos, e acordos precisam ser feitos rapidamente para que a violência não tome conta de tudo. É dessa tensa negociação que, no fundo, trata o filme. Pelo menos enquanto a cena não é ocupada pela terrível revanche dos meninos, aqueles que, ao contrário dos adultos, ainda não aprenderam como se controla o ódio.

Outro elemento que atravessa aquele dia de cão em Montfermeil é o drone de um pequeno voyeur, que filma o mau procedimento de um policial e se torna objeto de caçada. É reconfortante ver o drone, enfim, usado dramaticamente, e não apenas como um fetiche tecnológico exibicionista.

OS MISERÁVEIS merece admiração irrestrita pela forma como conduz seus diversos fios narrativos no tempo condensado de dois dias e pela impressão de autenticidade que passa em todos os níveis. Mas o que coloca o filme num patamar realmente superior é a sua capacidade de nos questionar. É possível que cada um de nós tome partidos diferentes e faça julgamentos parciais enquanto somos sacudidos por seu labirinto ético e somos levados através da grande área cinzenta de Montfermeil. A ausência de maniqueísmo nos agrada, mas também nos interpela todo o tempo. No fim das contas, como é bom ter um filme de tal voltagem social que não traz um veredicto na manga.

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