Pela beatificação de Fred Rogers

UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA

Parece que há em Hollywood um movimento pela beatificação de Fred Rogers. Em 2018, o documentarista Morgan Neville traçou um perfil do célebre apresentador de programas infantis da TV americana em Won´t You Be My Neighbor?, que teve recepção exageradamente positiva nos meios críticos de lá. Talvez como uma reação à vulgaridade e à brutalidade da televisão atual, o estilo de “Mr. Rogers” esteja sendo incensado.

Ele era padre presbiteriano e republicano de carteirinha. Durante as três décadas em que atuou (1960 a 1990), conservava o visual careta do americano médio e ensinava as crianças a se sentirem valorizadas como gente, estimulando valores cristãos como o amor, o perdão e a aceitação do outro como ele é. Não hesitava em tratar de assuntos graves como o erro, o extravio, o racismo, o divórcio dos pais e a morte. Trabalhava com fantoches personificados, maquetes rudimentares e nenhum recurso de alta tecnologia. Quando entrava em cena, era como se chegasse em casa: trocava os sapatos por um tênis e o paletó por um casaquinho antes de perguntar se os espectadores queriam ser seus vizinhos. Pelo visto, todo mundo queria.

Esse personagem tem mesmo a cara de Tom Hanks, tido como o ator mais amado de Hollywood. Ele recria minuciosamente Fred Rogers em UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA (A Beautiful Day in the Neighborhood). Não fosse por uma ruga de expressão na testa, que confere ao ator uma severidade ausente no modelo real, seria uma caracterização perfeita.

Hanks concorre ao Oscar de ator coadjuvante, uma vez que o papel principal é do limitado Matthew Rhys como Lloyd, o jornalista escalado para fazer um perfil de Rogers para a revista Esquire. O personagem é inspirado em Tom Junod, autor de uma reportagem de capa em 1998. Indisposto com a tarefa e cheio de ideias preconcebidas sobre o sentimentalismo do apresentador, Lloyd vai se surpreender com o que encontra. Na crise que vive com o filho bebê e o pai indigesto e doente, a relação com Rogers vai funcionar como uma temporada de psicanálise com final mais do que previsível.

No fundo, trata-se de uma história de conversão. Tanto o documentário de Neville quanto a ficção de Marielle Heller (do interessante Poderia me Perdoar?) são hagiografias assumidas, nas quais Fred Rogers é retratado como um ser imune a defeitos, transpirando odor de santidade. Alguém que teria uma vida privada exatamente igual a sua persona pública. Afinal, quem ousaria contrariar a imagem que dele fazem as plateias americanas? Numa cena do filme, a mulher do jornalista recomenda cuidado ao marido na reportagem: “Não arruine minha infância”.

O pedido tem sido rigorosamente atendido pelos cineastas. O resultado, em ambos os filmes, é piegas e modorrento, exatamente como soam hoje as preleções de Rogers a seus pupilos. O uso de maquetes animadas para figurar as cidades de Pittsburgh e Nova York evoca a cenografia low-tech dos programas e acrescenta uma estudada ingenuidade a esse retrato unidimensional de um ícone, no fundo, enigmático.

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