Cai uma estrela

JUDY: MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS

Como Judy Garland em seu último ano de vida, Renée Zellweger encontrou finalmente um papel em que suas incontroláveis micagens faciais foram bem-vindas. JUDY: MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS faz uma fusão entre as personalidades da atriz, ressurgindo de um período de decadência e inatividade, e da cantora, enveredando por um inferno pessoal e profissional. Assim, quando Renée exagera no gestual e nas caras e bocas (mesmo por trás de muita prótese, inclusive dentária), é como se víssemos as duas ao mesmo tempo.

É uma performance magistral, sobretudo porque Renée usa sua própria voz nas canções arrancadas do fundo do coração.

De resto, JUDY é uma história padrão de poor little star, suntuosamente melodramática. Aos 46 anos, Judy Garland encontra-se sem trabalho e até sem casa para morar com os dois filhos menores. Aceita, então, um convite para fazer shows em Londres, mas não consegue sustentar os compromissos. Bebe muito, tem crises de pânico, chega atrasada e deprimida aos palcos.

O filme de Rupert Goold coleciona episódios quase independentes, em que Judy se relaciona com a equipe londrina, um novo namorado e futuro marido, e um casal de fãs gays com quem divide uma das melhores cenas.

É interessante lembrar da versão clássica de Nasce uma Estrela, em que Judy Garland vivia a ascensão da cantora Vicki Lester enquanto o homem que a projetou caía na sarjeta. JUDY é o contraponto perfeito. Garland agora é a personagem de um filme que bem poderia se chamar Cai uma Estrela. Outro nexo cinematográfico é explorado nos flashbacks de Judy sendo vampirizada e chantageada por Louis B. Mayer na preparação de O Mágico de Oz. A fragilidade e a angústia da cantora em 1968 são vistas como consequências diretas de uma vida inteiramente oprimida pelo showbusiness.

Quando, numa de suas últimas apresentações, ela pede ao público que prometa não esquecê-la, está implorando isso aos filhos que a rejeitaram, a Mickey Rooney que não quis namorá-la e à posteridade que ela temia desconsiderá-la. Estava errada, como o sucesso desse filme comprova.

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