Um jagunço na contramão

SERTÂNIA na Mostra de Tiradentes

Um homem rasteja na caatinga até encostar-se num pequeno barranco. Está ferido de bala e carrega um crucifixo no peito. Agoniza e exclama entre os dentes “desgraça!”. A cena se repete diversas vezes como mote narrativo do novo e surpreendente filme de Geraldo Sarno. SERTÂNIA se estrutura como um fluxo de alucinações do jagunço Antão (vulgo Jararaca ou Gavião) depois de ser baleado pelo companheiro Jesuíno Romão.

Aos 81 anos, Sarno está de volta à ficção com um trabalho de grande empenho estético e que ecoa elementos de sua própria obra e do Cinema Novo. SERTÂNIA estreou no último domingo na Mostra de Tiradentes.

O roteiro, escrito já há mais de dez anos mas profundamente alterado nas fases de filmagem e montagem, se passa na década de 1920, quando o cangaço do modelo Lampião ainda não havia se instalado no Nordeste. Os pré-cangaceiros eram jagunços a serviço dos coronéis e da polícia. Antão, filho de um jagunço assassinado em Canudos, ainda criança foi levado por militares para São Paulo, onde prestou serviço. Depois de crescido (papel do músico e ator Vertin Moura), resolveu voltar para o sertão em busca da imagem do pai. Alistou-se no bando do jagunço Jesuíno Romão (Julio Adrião), que não por acaso tem a mesma fisionomia do seu pai.

A relação entre os dois é trágica, como era a do cangaceiro com o filho do coronel em Faustão, de Eduardo Coutinho. Antão, agora apelidado de Gavião, é o homem que vê, ao contrário das meninas cegas que em dado momento aparecem no filme. Gavião é a consciência social que falta a Jesuíno. Esse conflito vai ter o seu clímax quando Gavião se opõe a um massacre de retirantes praticado pelo amigo/pai a soldo dos poderosos locais.

Todas essas etapas da história emergem no lusco-fusco entre realidade objetiva, memória e alucinações de Gavião em sua aflição de ferido. Talvez seja preciso ver o filme duas vezes para dominar as várias camadas e as interrelações entre elas. Há mesmo uma visita antecipada de Gavião ao reino dos mortos (Canudos destruída), onde ele reencontra parentes, procura pelo pai e conversa com o Coronel Delmiro Gouveia, personagem-título de um célebre filme de Sarno de 1978.

SERTÂNIA deambula na encruzilhada entre o Novo e o novíssimo. Do cinema brasileiro dos anos 1960 traz ecos visuais e sonoros de filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Os Fuzis. A figura do cantador, a fotografia em preto e branco e a iconografia clássica do Nordeste (rostos, mandacarus, vaqueiros cortando a caatinga) e uma certa teatralidade evocativa do Cinema Novo nordestino ressurgem “atualizadas” na associação criativa com Eryk Rocha e seus habituais fotógrafo e montador. A edição de Sarno e Renato Vallone, com suas recorrências, ressonâncias e sobreposições, acentua o caráter mental da narrativa. O mesmo faz a extraordinária fotografia de Miguel Vassy. A vastidão da tela panorâmica é seguidamente fustigada por estouros de luz. As composições remontam a imagens da religiosidade popular – tema frequente na obra do diretor –, incluindo uma reedição sertaneja da Última Ceia e uma aparição de Edgard Navarro como Antonio Conselheiro. A estética do retrato posado também é contemplada, fazendo com que os olhares do povo voltados para a câmera realcem o subtema da visão e da consciência.

Assim como oscila entre acontecimentos efetivos e projeções da mente, o filme transita entre o passado e o presente, entre a linguagem e a metalinguagem. A equipe e o fazer do filme transbordam aqui e ali para o plano da encenação, enquanto um belíssimo epílogo conecta a imagem do povo de ontem à do povo de hoje. SERTÂNIA faz essa operação em vários níveis, ligando a tradição moderna do cinema brasileiro a uma visualidade contemporânea. Nada mais é do que a comprovação de que Geraldo Sarno está forte, jovial e fiel a seu universo de invenção.

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