O Brasil, do daguerreótipo ao selfie

FOTOGRAFAÇÃO

Como contar a história que vai dos três daguerreótipos produzidos pelo Padre Louis Compte no Rio em 1840 e os milhares de selfies tirados numa manhã de domingo na Avenida Paulista de 2019? Como tratar da fotografia do tempo em que era um momento extraordinário, e não um gesto quase automático do cotidiano? A empreitada soa impossível para um filme, mas Lauro Escorel encontrou uma boa e didática forma de resumi-la no documentário FOTOGRAFAÇÃO. Ele já havia dirigido a série Itinerários do Olhar, que enfocava o trabalho de cinco duplas históricas de fotógrafos brasileiros de várias épocas. Nesse longa-metragem para cinemas, a abordagem é tão panorâmica quanto reveladora e saborosa.

No dia 11 de março, uma sessão do filme às 19h30, no Instituto Moreira Salles (Rio) será seguida de debate com Milton Guran, diretor, fotógrafo e antropólogo, e Sabrina Moura, pesquisadora.

Augusto Stahl, Marc Ferrez, Augusto Malta, Major Tomás Reis, Mário de Andrade, Marcel Gautherot, Pierre Verger, Hildegard Rosenthal, Jean Manzon, Thomaz Farkas, José Medeiros, Luiz Carlos Barreto e Maureen Bisilliat compõem o elenco principal de uma trajetória que mostrou o Brasil aos brasileiros através da fotografia. Poderia vir até nomes mais recentes como Walter Firmo, Luiz Braga ou Miguel Rio Branco, mas suas tendências não deixam de estar representadas. E, afinal, é preciso impor limites para um filme de breves 75 minutos.

O roteiro de Lauro e Evaldo Mocarzel privilegia, naturalmente, as imagens. Mas a narração do próprio diretor conduz nossa percepção através do tempo, com o auxílio também de primorosos trechos de filmes de época, que ajudam a contextualizar as fotografias. Em conversas com Maureen Bisilliat, Boris Kassoy e o agudo Milton Guran, entre outros, Lauro colhe impressões sobre o papel da fotografia na formação (ou às vezes deformação) da imagem do país. Como diz Guran numa de suas intervenções sempre iluminadoras, citando um fotógrafo norte-americano: “A fotografia não mente, mas mentirosos fotografam”.

Para os não iniciados na história da fotografia brasileira, o nome de Hildegard Rosenthal, pioneira do fotojornalismo, pode vir a ser ouvido pela primeira vez nesse filme. Os contrastes entre o “encenador” Manzon e o espontâneo Medeiros são outra particularidade bem analisada. O fato de vários fotógrafos famosos serem filhos de diplomatas é uma constatação no mínimo curiosa. Por sua vez, a frequência com que estrangeiros se destacaram no ramo ao longo dos séculos XIX e XX no Brasil é algo que fica somente nas entrelinhas.

FOTOGRAFAÇÃO recorre com frequência a trechos autobiográficos de fotógrafos célebres. Em certa medida, é também um filme pessoal. Lauro Escorel frisa a relação entre a fotografia e o cinema de época ao citar exemplos de seu próprio trabalho como diretor de fotografia. Menciona, por exemplo, a inspiração em Marc Ferrez para as imagens de O Xangô de Baker Street; em Maureen para a estética de Quilombo; e a referência direta a uma série de Manzon numa das cenas emblemáticas de Brincando nos Campos do Senhor.

A bonita trilha musical de Zé Nogueira e a voz calorosa de Lauro Escorel nos transportam através dos vários períodos até nos deixarem com indagações sobre o presente e o futuro da fotografia na era digital. A banalização do gesto de fotografar será o fim de uma belle époque ou o alvorecer de um novo estatuto para as imagens?

2 comentários sobre “O Brasil, do daguerreótipo ao selfie

  1. Que texto! Lendo ouvi a narração do filme. Obrigada, Mestre, por nos conduzir pra dentro das telas. O cinema Resiste!! ✊🏽🎬😘❤️

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