Ilha utópica no “país de merda”

FIM DE FESTA

Em FIM DE FESTA, o habilíssimo roteirista Hilton Lacerda joga mais uma cartada arriscada. Um filme quase sem trama, sustentado na impressão de veracidade dos diálogos e no manejo de personagens que são pura superfície. Embora sem a mesma força e novidade, a vibe é semelhante à de Tatuagem, o primeiro filme de Hilton como diretor. Mais uma vez, trata-se de aproximar polos dramáticos muito distantes. Em Tatuagem, o soldado e o astro de cabaré. Em FIM DE FESTA, o policial e seu filho hedonista e não binário.

Tudo se passa na ressaca de um carnaval em Recife, um dos mais febris do Brasil. Breninho, o filho, curte a rebordosa junto com duas amigas e um amigo em quadrilátero amoroso sem conflitos nem fronteiras. Breno, o pai policial, chega de férias antes do tempo e encontra os quatro aboletados em sua casa – e um deles até em seu calção. Breno e Breninho, tão opostos na vida prática, se entendem perfeitamente a bordo de um baseado. Estamos diante de uma convivência quase utópica entre o tira ético e profissional, e o filho transgressor.

Um misto de ternura, sensualidade e lombra liga todos os personagens enquanto, fora daquele pequeno círculo de tolerância total, a realidade pega fogo. Uma turista francesa foi assassinada em meio à folia, cabendo a Breno chefiar as investigações. As pessoas esbravejam contra “esse país de merda”, gente reacionária agride mulheres de topless na praia. A festa acabou e a cidade retomou sua rotina de violência.

O amálgama de filme policial, ecos de carnaval e relações afetivas me lembrou A Lira do Delírio, a obra-prima de Walter Lima Júnior. Ali também uma aragem de naturalidade tornava indiscerníveis atores e personagens. Pelas lentes intimistas do fotógrafo Ivo Lopes Araújo, FIM DE FESTA transcorre como uma série de instantâneos de gente no curso da vida, cenas estanques que se sucedem sem maior compromisso de continuidade. Por mais que pareçam excêntricos ou mesmo improváveis a olhos conservadores, e ainda que algumas cenas se arrastem de maneira condescendente, a experiência de ver o filme não deixa de ser instigante.

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