Caixa de ressonância

NÃO TOQUE EM MEU COMPANHEIRO em lançamento online

Na próxima segunda-feira, 20 de julho, Maria Augusta Ramos abre o NA REAL_VIRTUAL – Seminário online sobre documentário brasileiro contemporâneo, do qual faço parte como um dos curadores e mediador. Ainda é tempo de inscrever-se, bastando acessar o site da produtora Imaginário Digital.

Mas antes disso a documentarista, uma das mais conceituadas do cinema brasileiro com filmes como O Processo, Justiça, Juízo e Morro dos Prazeres, lança online o seu novo filme. Projeto atípico na filmografia de Maria Augusta, NÃO TOQUE EM MEU COMPANHEIRO foi realizado a convite da Fenae (Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal). O título, inspirado na expressão francesa “Touche pas à mon pote“, é o slogan do movimento que lutou pela reintegração de 110 funcionários demitidos da Caixa em 1991, na onda de hostilidades do governo Collor aos servidores públicos, então caracterizados como “marajás”.

O filme reúne veteranos do movimento vitorioso para relembrá-lo e para analisar a situação da classe nos dias que correm, quando novamente as baterias de um governo ultraliberal se voltam contra o serviço público. Maria Augusta reuniu também jovens funcionários e funcionárias atuais para discutirem a precarização do trabalho, a desmobilização da coletividade, as investidas de privatização na empresa e a denegação do seu papel social. Um papel que é ilustrado pela entrega de moradias financiadas às classes populares e pela atividade de uma agência-barca da Caixa em distantes cidades ribeirinhas da Amazônia.

O elo entre Collor e Bolsonaro é explicitado brilhantemente no trecho de uma palestra da filósofa Marilena Chauí. Ela faz paralelos entre os dois mandatários, déspotas que se pretenderam enviados de Deus para corrigir e modernizar a nação. A ideologia econômica dos respectivos governos – em que pese as diferenças de superfície – se nivela no ataque aos direitos trabalhistas e às empresas públicas.

Este é um filme simples, voltado para a funcionalidade, sem a envergadura habitual dos trabalhos de Maria Augusta. O que não significa que ela tenha aberto mão de seu estilo e de seu rigor. À exceção de um curto depoimento direto do economista Luiz Gonzaga Belluzzo sobre a importância histórica da Caixa, não há interlocução com a câmera. O que vemos são conversas entre os funcionários (alguns deles agentes sindicais) e cenas de arquivo das duas épocas abordadas.

Pela fresta desse microcosmo podemos verificar como o Brasil parece fadado a voltar dois (ou mais) passos atrás depois de cada tímido passo para a frente. Os governos de FHC e do PT (este mencionado de passagem) são um grande “não dito” que grita dentro do filme. São o intervalo implícito entre as duas catástrofes que os eleitores brasileiros atraíram para si mesmos. Numa como noutra, a Caixa Econômica esteve sempre na mira.

NÃO TOQUE EM MEU COMPANHEIRO poderá ser visto a partir de 15 de julho nas plataformas NetNow, Vivo Play, Oi Play, FilmeFilme e Looke.

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