Uma brasileira na China, por Elisa Moreira Salles (I)

Numa deferência especial, João Moreira Salles me autorizou a publicar o artigo que sua mãe, Elisa Moreira Salles, escreveu a respeito de sua viagem à China em plena Revolução Cultural, extensivamente comentada pelo cineasta no filme No Intenso Agora. Cheio de agudas percepções, o artigo expressa a surpresa e o encantamento da autora com o que encontrou, mas também a crítica da turista aos excessos e deficiências que viu na coqueluche maoista de 1966.

A matéria foi publicada originalmente em duas partes na revista O Cruzeiro em setembro de 1967. O texto vai transcrito aqui sem qualquer revisão, com a ortografia da época. As imagens são do filme da viagem.

Uma brasileira na China (I)


Texto de ELIZINHA MOREIRA SALLES (Especial para O CRUZEIRO)

Espôsa do banqueiro Walter Moreira Salles, D. Elizinha não sòmente figura entre as dez mais elegantes do Brasil como pertence à Alta-Sociedade Cosmopolita. Senhora de muitas andanças, cruza anualmente fronteiras e oceanos, por isso mesmo se tendo transformado em “globe-trotter” famosa. Regressando recentemente da lendária China, D.Elizinha relata o que viu e ouviu naquele país, sôbre o qual paira o enigma do futuro da Humanidade.

Chegamos a Xangai, à noite, para o que viria a ser a viagem mais penosa e fascinante de minha vida.

À descida do avião, tivemos o primeiro contato com a Guarda Vermelha, que nos formava uma ala de honra. Imediatamente, recebemos o livro de Pensamentos de Mao Tsé-Tung e tôda uma literatura de propaganda, juntamente com uma fita vermelha, que nos garantiria o tratamento de turistas de primeira classe.

Xangai não parece uma cidade chinesa: seus grandes prédios monótonos, quadrados, eternamente iguais, vão se transformando em uma imensa favela. O encontro com o Oriente só se faz sentir pelo cruzamento, em suas largas avenidas, com um vestígio do passado,  que o Partido não foi ainda capaz de eliminar:  os jinriquixás, puxados por velhos e velhas que, com seus rostos de pergaminho, não encontram emprêgo no Grande Salto para a Frente. O desalento dêsses prédios em decomposição é, no entanto, disfarçado pela alegria dos cartazes, difundindo os dizeres de Mão, e por retratos do líder nacional, dependurados desde o teto até o chão dos edifícios, e exibidos em tôdas as vitrinas.

Quanto vermelho, quanto barulho! Em cada esquina, de cada rua, de cada cidade da China, há um alto-falante que, catorze horas por dia, recita os Pensamentos e decanta as qualidades do chefe.

Sabíamos que o povo chinês é, de uma maneira geral, amante do barulho. Mas o desfilar incessante, o alarido de tambores, os grupos de pessoas reunidas em cada canto, a ler o seu Breviário (como passamos a chamar o Livro de Pensamentos), nessa voz típica da Ópera Chinesa, que faz lembrar um miado de gato, tornou-se em breve um pesadelo para todos nós.  O que é sobremodo impressionante é a devoção com que o retrato do deus-vivo, Mao Tsé-Tung,  é carregado pela multidão ociosa, em intermináveis paradas. Um toque de misticismo, que só se percebe em certas cidades da Espanha, durante a Semana Santa.

Outra inesquecível e permanente reminiscência são as duas canções, O Bom Navegador (É Imprescindível Ter-se um Bom Timoneiro – Mao – para Cruzar os Mares) e uma linda melodia A Estrela Vermelha, tirada de um filme do mesmo nome que trata da Guerra da Libertação e da Grande Marcha.

Do hotel, que Sir Victor Sassoon construiu em Xangai, nada ficou do antigo esplendor: veludos vermelhos esfarrapados, capitéis descascados, cortinas em ruínas… Aliás, penosamente, descobrimos que a decantada limpeza chinesa, que se aplica a tudo o que é de uso público (ruas, museus, aeroportos, estações de estrada de ferro, etc.), é ràpidamente esquecida, assim que as portas se fecham:  os banheiros são sujos, os lençóis e toalhas, mal lavados, e sôbre as cozinhas de trem é preferível nem falar. E o odor característico do povo, misturado ao cheiro de gorduras cozidas e óleo de soja, nos ficará para sempre como uma recordação de Xangai.

A hierarquia dos carros

À noite, depois do jantar, saímos para dar uma volta pela beira-mar. Imediatamente, fomos cercados pela GV, que nos aplaudia. No trajeto, de nôvo encontramos grupos de mocinhas que, em círculo, liam os Pensamentos. Isso nos impressionou, pois, evidentemente, o faziam com grande naturalidade e prazer. Mais tarde, sobretudo em nossas longas viagens de trem, revimos êsse mesmo espetáculo; mas infelizmente, nessas ocasiões, o ar de fanatismo ingênuo desaparecia, deixando-nos a impressão de um show planejado em nosso benefício.

Aos grupos que estudavam o capítulo do dia, sucediam outros que dançavam ao som de hinos militares. O gesto da criança chinesa é único e vai buscar sua inspiração nas figurinhas de Blanc de Chine. Nem a raça negra mexe e anda tão bem quanto a chinesa. E, para enriquecer êsse inconsciente ballet de cada momento, as mãos mais lindas da Terra! A finura dos dedos, a mobilidade fácil, são extraordinárias. Perto da fantástica qualidade da pele chinesa, a famosa compleição inglêsa é uma blague.

Tôdas as crianças se vestem igual, mas… nós, que ingênuamente pensávamos que tudo, num país de comunismo ortodoxo, seria uniformizado, passamos a reconhecer nuanças sutis. Os uniformes de modêlo militar são ligeiramente mais bem cortados e de tecidos levemente superiores, de acôrdo com o status do que os envergam. As pessoas que conhecem a gama de qualidades e de côres não ignoram como todos se podem situar, com exatidão, na China. As côres dos carros, por exemplo, têm significação: o carro prêto significa o mais alto padrão de funcionário; logo após, se não me falha a memória, vem o cinza. Não me lembro exatamente a hierarquia das côres, mas sei que  há quatro padrões.

Na China, tem-se a impressão de que nada se fecha. Não há férias, pois, considerando-se que cada um trabalha para si e para a grandeza do Estado,  não há razão para descanso. Em tese, o trabalhador tem sete datas nacionais e um dia de folga por semana, mas ninguém parece querer aproveita-los, com mêdo de ser mal visto (a pensão de aposentadoria depende da firmeza ideológica).

As pequenas lojas permanecem abertas noite adentro. Os grandes magazines não fecham antes das oito. E, aos domingos, e depois das aulas do curso primário, é comum verem-se crianças e adultos que, empunhando pequenas bandeiras vermelhas de voluntários, se dirigem ao campo, para um trabalho extra, e não remunerado.

Mao – o Gênio bom

A fim de comprar sapatos de tênis para a viagem que faria à grande muralha – onde há de fato lugares escorregadios – fui à Amizade, a loja para estrangeiros. Achei os tênis por 3,5 ienes, mas não do meu tamanho. Gentilmente, o guia levou-me à loja vizinha, reservada aos chineses. Lá, os mesmos sapatos custaram 4,88 ienes. (A propósito, uma vitrola custa 200 ienes em Xangai, exportada para Hong-Kong, se compra por 50.)

Num domingo, ainda em Xangai, fomos visitar o Palácio de Exposições (que se chamava Palácio da Amizade Russo-Chinesa, antes que a amizade acabasse tão mal). Ali, as mostras de artigos chineses assemelham-se curiosamente aos produtos americanos, como, por exemplo, as toalhas de banho floridas, típicas da Lord & Taylor. A qualidade não é boa, e tudo tem aparência ordinária, exceção feita aos equipamentos para hospital.

No Palácio das Exposições, ouvimos pela primeira vez a fábula do Velho Louco, que nos seria, incessantemente, repetida: Um velho louco herdara uma terra pobre. Atrás de sua casa e vencida uma montanha íngreme, encontravam-se terras férteis.  O velho decidiu remover a montanha. Todos o chamavam de louco e se riam dêle.  Mas o velho, incansàvelmente, repetia: “Vou tentar. Talvez não consiga mudar tôda esta terra, durante a minha vida. Mas, depois de mim, meus filhos trabalharão e, depois, meus netos. E, um dia, a montanha será aplanada.” O Gênio bom, na China de hoje personificado por Mao, dêle se apiedou. E, uma bela manhã, ao despertar, e indo o velho para o trabalho, com sua pequena pá, teve a boa surprêsa de encontrar a montanha removida. Isto, viemos a compreender, representa o estímulo ao esfôrço continuado que cada chinês deve à sua pátria e ao seu líder.

A propaganda

A utilização imediata de qualquer acontecimento para fins de propaganda é impressionante.

No teatro de Xangai, ao lado de seus insuperáveis acrobatas, vimos a encenação de fato ocorrido uma semana antes. Um operário queimado no incêndio de uma refinaria de petróleo, antes de pedir qualquer socorro, e em meio a atrozes sofrimentos, gritou: “Dou minha vida pela causa da Revolução Cultural Proletária”. Esta peça, que durou uma hora, levou a plateia ao paroxismo da exaltação: de pé, leram seu Breviário, jurando continuar a Nova Revolução, ao preço mesmo da vida.

Outras cenas abordavam dezoito itens da Revolução Cultural.

Onde quer que fôssemos, escolas, cooperativas agrícolas, fábricas, museus, éramos sempre levados a uma sala, onde o líder local nos explicava não só o funcionamento de seu projeto, como também das causas da Revolução. Esta endoutrinação permanente era a moeda de câmbio que pagávamos, pelo direito de ver as obras de arte, que nos arrastaram a tão longa jornada.

Quanto ao plano habitacional, tivemos uma demonstração ainda em Xangai. Os poucos prédios novos, divididos em apartamentos diminutos e construídos com material de qualidade inferior, não possuem calefação e banheiro. Há apenas um W.C. e uma pia minúscula. Banham-se semanalmente em tinas de madeira e cozinham em fogareiros de duas bôcas. O que nos surpreendeu nesse conjunto residencial, de que tanto se orgulham as autoridades de Xangai, é a completa falta de móveis. O chinês, que, indiscutivelmente, em anos de boa colheita, come bem, e, apesar do flagelo da tuberculose, tem ar sadio, é destituído de qualquer bem material. Nossas favelas, onde a pobreza não elimina totalmente o acesso aos bens materiais, tais como transistores, geladeiras e até mesmo televisão, parece um sonho inatingível para o operário chinês, que, muitas vêzes, não dispõe sequer de uma cama para se deitar.

O museu de Xangai

Pela manhã, quase que sorrateiramente, visitamos o museu de Xangai. Seu conservador, homem extraordinàriamente culto e requintado, pareceu-nos um insubstituível vestígio do passado. As porcelanas são, na maioria, cópias, cujos originais o chinês revoltado informa terem sido roubados pelo govêrno de Formosa. Mas os bronzes, admiráveis obras de arte, mais emocionantes, para o meu gôsto, que qualquer vaso grego, lá estão, a comprovar uma espiritualidade que se sufocou.  Em nenhum lugar do mundo se verão bronzes comparáveis. Os poucos espécimes de porcelana Sung que lhe restaram são igualmente excepcionais.

Infelizmente, êsse foi o único museu que pudemos visitar, pois a GV, constituída de meninos de oito a vinte e cinco anos, está reformando e eliminando o que contrarie a sua doutrina. Durante êste período de reestruturação, todos os museus estão fechados.

Hangchou

Hangchou foi nosso verdadeiro encontro com a China tradicional: os telhados de porcelana, o ar de eternidade, tranqüila e imutável, como na estampa que trazíamos, desde sempre, no pensamento.

Lá encontrei a verdadeira inspiração de Chippendale, cujos admiráveis móveis sempre me encantaram – mas que não puderam transferir à Inglaterra a pureza e espontaneidade do estilo Ming, no seu ambiente de origem.

Em Hangchou, visitamos uma Cooperativa de Chá. Nesta cidade afastada dos grandes centros, o ritmo revolucionário ainda não atingiu a alma das pessoas. O ar é mais leve, a cadência mais tranqüila, os sorrisos mais alegres. De novo nos surpreendemos com a beleza das mãos: um lavrador, que cultiva a terra, desde o nascer do sol até noite adentro, vivendo na maior dificuldade, sem água corrente ou confôrto de espécie alguma, tem o toque de uma criança.

Na fábrica de sêda Oriente Vermelho, em meio a uma profusão de flôres, o prédio antigo, inconfortável, sem aquecimento no inverno rigoroso, com microfones a repetir, enlouquecedoramente, as palavras de Mao. Exemplo da fábrica obsoleta anterior à Revolução Industrial, aos Sindicatos de Trabalho e ao direito de greve.

Os leões decapitados

No Templo do Refúgio dos Espíritos, notamos pela primeira vez a hostilidade dos GV: cercando o Templo pròpriamente dito e olhando-nos com certa aversão, nos impediam a passagem. Lá vimos também outra espécie de cartazes, êsses sempre brancos, pedindo ao povo ordem e respeito às obras de arte do Estado. Infelizmente, estas medidas tardias não impediram a destruição de vários budas e leões sentados, símbolos do poder dos antigos mandarins. Nas imensas grutas esculpidas de budas, à maneira de Elora e Agenta, a grande decepção com a escultura chinesa. Influenciada pela escultura greco-budista, não se lhe compara; os chineses, extraordinários cinzeladores, são escultores medíocres.

No antigo mosteiro da Fonte do Tigre, novos sinais de vandalismo, oque não esqueceu sequer a tumba do general Yue Fei, grande defensor dos camponeses!

Os lagos

Os lagos de Hangchou, circundados por chorões centenários, certamente os mais belos do Mundo, são inesquecíveis. Inesquecíveis também os seus dois jardins: A Ilha dentro da Ilha e o Lago dentro do Lago e o Parque da Contemplação do Peixinho Dourado.

Em cada jardim, a antiga casa chinesa, resguardada na sua forma genuína: a sala de entrada, proibida às mulheres, e diversos pavilhões interligados por caramanchões cobertos e separados por pátios e lagos sucessivos. Em cada canto, um jardim insuspeitado, povoado de quiosques de formas caprichosas. Cada pátio é concebido para um uso especial: o pátio da contemplação da pintura, o pátio das leituras de poesias, o pátio do estudo das obras de Confúcio, a sempre presente floresta de bambu e o jardim das árvores anãs.

No Parque da Contemplação, idealizado por influente mandarim, os peixes-flor. Êsses peixes, conseguidos depois de trezentos ou quatrocentos anos de procriações sucessivas e intencionais, movem-se como flôres. Com vinte ou mais barbatanas, são de colorido e formas extravagantes.  Mais preciosos que uma jóia, eram dados à mulher amada, como símbolo de um sentimento imutável.

A velha China nos legou outro refinamento particular: as pedras, que, lançadas ao lago do oeste e trabalhadas durante dois séculos por suas fortes correntes, tomavam formas fantasmagóricas. Usadas como esculturas nos pátios dos jardins, demonstravam poder e cultura. Verdadeiros Picassos, mostrando que, no Mundo, nada se perde e tudo se renova.

O conhecimento do jardim chinês suscitou divergências no nosso grupo. As preferências estavam divididas entre o gôsto japonês e a concepção chinesa, de estilo tão sutil. A planificação japonêsa é òbviamente cerebral. A chinesa pode lograr o observador incauto. Muito mais profunda e de sentido quase filosófico, conserva a aparência de casualidade. E é justamente êste o grande apelo do jardim chinês: os efeitos do mais profundo lirismo, atingidos através de uma causalidade quase metafísica. Mas o jardim chinês, desdobrando-se em ambientes sucessivos, destina-se à reflexão e à contemplação da alma. Nos recôncavos das pedras caprichosas, colocadas, com cuidado, nos lugares onde o luar, incidindo, possa banhá-las de luz apropriada, a alma descansa. Nas montanhas, tão caras à sensibilidade chinesa, a alma vagueia, em passeios metafísicos.  Dos pátios mágicos, o homem contempla, absorto, o seu próprio espírito desencarnado. É a concepção da superioridade espiritual do Oriente, onde a essência do ser, no continuado treino de autocontemplação, adquiriu fôrça total e domínio sôbre a matéria corpórea. É o corpo acorrentado.

Na manhã seguinte, visitamos, bem cedo, o Pagode das Seis Harmonias, compreendendo, enfim, o porquê da pintura chinesa, nunca dependurada mas guardada em rolos, dentro de cofres e só mostrada aos grandes iniciados. À medida que subíamos a montanha, e forçados, pela configuração do terreno, a quebrar caminhos, víamos, diante de nós, a sêda desenrolada: o lago, com seus tradicionais chorões, que se transforma 50 centímetros depois numa esquina do caminho, inexplicàvelmente e sem solução de continuidade, numa floresta de bambu, para novamente se transformar num campo de arroz ou numa árvore desgalhada, a cuja sombra o chinês absorto medita sôbre a eternidade.

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NO PRÓXIMO NÚMERO : Os jardins de Suchou, Comunidades agrícolas de Nanquim, A Guarda Vermelha, A Grande Muralha.

 

 

 

5 comentários sobre “Uma brasileira na China, por Elisa Moreira Salles (I)

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