A África exuberante de Beyoncé

BLACK IS KING no Disney+

Não resisto à comparação: Black is King me pareceu um desfile de escola de samba pop. O enredo é a louvação da realeza africana. Em vez de um samba-enredo, uma coleção de canções soul, funk e hip hop mescladas com sonoridades e cantos africanos em várias línguas nativas. Em lugar de um desfile sequencial, um mosaico de alegorias e referências à diáspora negra e um chamado ao empoderamento do povo preto.

Como no Carnaval, é difícil rastrear uma narrativa na evolução da escola, digo, do filme. Na verdade, não é um filme no sentido narrativo, mas um “álbum visual”, nova nomenclatura para videoclipes reunidos num conjunto maior e com alguma organicidade. Sucedem-se os módulos alegóricos em cenários alternados, saltando da África do Sul para Nigéria, Gana, EUA e estúdios na Bélgica. Como âncora muito tênue, a história do pequeno Simba, que é recolhido num rio como Moisés, deixa sua tribo e cresce para se conscientizar do valor de seus antepassados.

Mas quem ocupa o centro absoluto não é Simba nem leão nenhum. É Beyoncé, entronizada ora como madona de chocolate, ora como rainha tribal ou diva black-chic. Narcisismo à parte, ela divide o núcleo do universo com outras celebridades negras – entre as quais Naomi Campbell, Lupita Nyong’o e seu marido Jay-Z – e talentos menos conhecidos de várias latitudes diaspóricas. A inspiração principal veio da refilmagem semidigital de O Rei Leão de 2019, que teve músicas de Beyoncé na trilha.

Apesar do nome aristocrático de Beyoncé Knowles-Carter imperar sobre tudo e todos, o trabalho é de uma equipe imensa. Os créditos dão conta de três co-diretores e mais sete pessoas creditadas também como diretores, 16 montadores, 12 cinegrafistas e 69 figurinos exuberantes só para a dona do pedaço. As ressonâncias abarcam Busby Berkeley, Michael Jackson, o cinema blaxploitation, o recente Pantera Negra e muito do que já se consagrou como estética do videoclipe há mais de 30 anos. Ver uma peça de alta vanguarda em Black is King talvez seja condescendência demais.

De qualquer forma, Beyoncé oferece um manifesto poderoso contra o enquadramento dos negros em guetos de inferioridade. As músicas e trechos de poemas os conclamam a “voltar para casa”. Nada a ver com o mito “there’s no place like home” tão celebrado pela Hollywood tradicional. A casa, aqui, são as raízes, a ancestralidade africana ameaçada pela diáspora e a fabulação de que todos na África descendem de reis e deuses. Negros foram feitos para ser, saber, se reconhecer e brilhar. Como Beyoncé.

Nada mais oportuno para um momento de expansividade do racismo e da ignorância nos EUA de Trump e satélites como o Brasil. Nesse sentido, a petulância de Beyoncé é muito bem-vinda. Mas a mensagem é tão reiterada e enfática que despertou críticas, como as que se lê de usuários do site Imdb. Alguns chegaram a classificar o filme como supremacista, por sugerir uma superioridade dos negros sobre outras etnias. Houve quem não suportasse ver numa cena o rapper Jay-Z sendo servido por criados brancos.

Black is King é o tipo de produto que tenta conciliar espetáculo de sucesso com um discurso de consciência étnica e uma pitada de polêmica. Na verdade, é tão bonito de ver quanto ligeiro para reter. Não escapa ao apelo do exótico na maneira como acumula signos africanos super-estilizados e hiperbólicos. Enquanto O Rei Leão antropomorfizava os animais, Black is King faz o inverso: atribui formas animais aos homens, sendo frequentes as alusões a peles de bichos e a sugestão de movimentos de feras, cobras, etc.

Se o espetáculo por um lado é livre de fórmulas, por outro fica aquém de uma formulação mais sólida além da pregação de orgulho étnico. No fim das contas, uma bela extravaganza, só possível pelo poder de uma rainha da cena contemporânea.

 

Um comentário sobre “A África exuberante de Beyoncé

  1. Sempre Amei os trabalhos da Beyoncé e Jay Z e agora Eles vem nos concientizar de algo muito relevante para nós Negros que na maioria não fazem idéia da Força de Nossas Origens. Mais um Sucesso com Certeza.

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