Onde tudo começou

CORONATION, de Ai Weiwei, no Vimeo on demand

Coronation foi lançado ontem no streaming mundial como o primeiro documentário de longa metragem sobre a Covid-19. Partiu do epicentro da pandemia, a cidade chinesa de Wuhan. Ali 15 cinegrafistas (voluntários ou remunerados) registraram aspectos diferentes da crise entre 23 de janeiro e 8 de abril. Em seu exílio na Alemanha, o artista plástico e cineasta Ai Weiwei recebeu quase 500 horas de material e rapidamente dirigiu a edição final de 113 minutos.

O filme tem a marca crítica de Weiwei, que já fustigou o status quo chinês em diversas formas artísticas, incluindo o cinema. Entre outros, ele já fez documentários sobre o assassino de seis policiais em Xangai e o desmoronamento de escolas no terremoto de Wenchuan em 2008. Coronation oferece um painel de casos pessoais e procedimentos coletivos que espelham os dois lados de uma sociedade tecnocrata extremamente controladora.

As autoridades de Wuhan cometeram o pecado capital de tentar minimizar a pandemia no seu nascedouro. Mas quando perceberam o erro, empenharam esforços descomunais para conter o vírus. No fim das contas (oficiais, pelo menos), a China teve cerca de 4.600 mortes, contra 175 mil nos EUA e 113 mil no Brasil até agora. As restrições à liberdade individual têm sido um preço alto a pagar pelo sucesso na limitação dos efeitos da praga. Eis um dilema que todos os países têm de alguma maneira enfrentado. Na China, porém, a escala de tudo parece incomensurável.

Coronation não precisou de nenhum efeito cenográfico ou tecnológico para parecer uma ficção científica. Os drones sobrevoando a cidade deserta ou um mórbido cortejo de ambulâncias, a longa caminhada de um médico pelos corredores labirínticos de um hospital de emergência, os profissionais de saúde metidos em camadas de capas protetoras, os robôs desinfectando as ruas – tudo se assemelha ao cenário de uma distopia.

As vinhetas dramáticas se sucedem, filmadas na intimidade. Um casal retorna a Wuhan através de várias barreiras de segurança sanitária e com dificuldade para abastecer o carro no inverno rigoroso. Um voluntário da construção de um hospital luta contra a burocracia para sair do limbo entre Wuhan e sua cidade de origem. Um homem insiste em se despedir das cinzas do pai sem a companhia indesejada de representantes sindicais. Um entregador se vê às voltas com as encomendas. Pessoas reclamam do confinamento em hospitais de campanha ou contra a inércia das autoridades. Num centro funerário, cinzas dos mortos são comprimidas para caberem nas urnas.

Filmagens clandestinas em hospitais flagram o trabalho de salvar vidas no limite e os cuidados meticulosos dos médicos para escapar da contaminação. O medo e a dor parecem também estar sob controle do estado, um controle que se ramifica por toda a população. Num dado momento, entreouvimos uma criança ao telefone dar mostras de estar obcecada pela desinfecção.

Enquanto isso, a máquina ideológica tenta manter o astral relativamente alto. Um grupo de médicos faz juramento de fidelidade ao Partido Comunista e uma equipe de trabalho festeja a vitória final de Wuhan contra o vírus. Uma sequência em especial desenha o embate entre a China revolucionária e as gerações mais novas, que valorizam a liberdade individual. Um filho conversa com sua mãe, uma senhora leal a Mao Tsé-Tung, para quem o estado precisa ser estável, sob pena de cair no caos. O rapaz lhe mostra cenas de violência policial nas ruas e critica o monitoramento dos celulares das pessoas para controlar localização e possível contaminação de terceiros. A mãe parece não querer ouvir ou acreditar que seu ideal de país esteja em xeque.

Wuhan entrou para a história como um laboratório das grandes decisões que o mundo terá que tomar de agora em diante. O que poderia ser mais um filme de Jia Zhang-ke sobre uma China em mutação ganhou de Ai Weiwei um toque de urgência. Coronation evidencia o quanto de surreal e macabro existe nesse momento da Humanidade.

Coronation está disponível mundialmente, com legendas em inglês, no Vimeo on demand. Segundo Ai Weiwei, o filme foi recusado pelos festivais de Veneza, Toronto e Nova York, assim como pela Netflix e a Amazon.

Veja o trailer:

7 comentários sobre “Onde tudo começou

  1. Penso q o filme é mega bem estruturado, minucioso nas cenas mais difíceis e delicado em outras. Maravilhoso Ai WeiWei.
    Difícil de assistir mas genial. Estou impactada.
    Boa crítica, querido.

      • Vou cobrar essa possibilidade. Confesso q sempre quis ser uma crítica de cinema, mas fiquei insegura. Não deveria, pois cursei jornalismo ( saudades de vc, Miguel Pereira).
        Por que vc não ministra esse curso? Seria muito bom.
        Bjs

      • Curso de crítica? Não mesmo. Ainda estou aprendendo. Mas te estimulo a comentar filmes, a princípio informalmente. Try it.

      • Meu bem, eu posso ser uma resenhista do seu blog? Eu quero muito isso, help me!
        Eu quero o Cinema marcando a minha vida, cada dia mais…. Me dê essa oportunidade, please. E me diz como fazer.

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