Ronda noturna num Rio soturno

BREVE MIRAGEM DE SOL no streaming (Globoplay)

É noite no Rio de Janeiro. Notícias de violência saltam do rádio e das comunicações entre taxistas. Na porta do Maracanã, a porrada come solta. Playboys babacas (desculpem o pleonasmo) se deslocam pela cidade com cervejas na mão. Executivos combinam tramoias no celular. Casais e famílias conduzem seus problemas a caminho de não se sabe onde. É o que reverbera nos bancos do táxi dirigido por Paulo (Fabrício Boliveira) em Breve Miragem de Sol, nossa versão bem mais amena do Taxi Driver de Scorsese.

Mas Paulo também tem o seu quinhão de angústia. Desde que perdeu o emprego, está separado da mulher e do filho, que anseia por ver. Eryk Rocha nos oferece esse personagem em meio ao caos sonoro e luminoso da noite pelos bairros cariocas. Tudo o que ele recolhe são fragmentos – de conversas, de transmissões pelo áudio do whatsapp, de vidas que passam pelo banco de trás. Suas reações variam entre a simples curiosidade, a indiferença e a irritação. Só a ternura da enfermeira Karina (Barbara Colen), uma das passageiras, é capaz de lhe fornecer o que talvez seja apenas a breve miragem citada no título.

Paulo é uma variante motorizada do Expedito de Transeunte, o primeiro filme de ficção de Eryk Rocha. É o homem comum que corta a cidade com sua solidão, deixando que o entorno ecoe em sua sensibilidade e, através dela, na nossa. Fatalmente, incorpora um olhar documental sobre ruas, mercados, restaurantes e espaços ermos da madrugada. Uma cena em especial, num restaurante frequentado por taxistas, repercutiu na minha memória a célebre sequência da parada de caminhoneiros em Iracema, uma Transa Amazônica, quando o personagem ficcional de Paulo César Pereio confraterniza com motoristas reais.

É interessante ver como um realismo minucioso nos detalhes da cenografia, nos gestos e expressões se combina com um recorte impressionista do Rio noturno, paisagem ora febril, ora soturna, tão incômoda quanto feérica. Cores, luzes e ambientação sonora concorrem para formar o estilo típico do diretor, calcado mais no movimento incessante e na sugestão audiovisual do que numa dramaturgia de ferro.

Desde a primeira cena, com a ênfase nos olhos de Paulo ao volante, Eryk sinaliza que tudo estará filtrado pela percepção casual daquele motorista solitário, apartado da sua própria vida. Sons e luzes ora o agridem, ora o enlevam. O filme transpira sensorialidade na fotografia do mago Miguel Vassy e no extraordinário desenho sonoro de Edson Secco.

Breve Miragem de Sol ratifica o lugar de Eryk Rocha como criador de uma linguagem toda própria, que absorve como esponja o ruído do mundo e o integra a uma ficção rarefeita, poética, sutilmente comovente.

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