É Tudo Verdade: “Segredos do Putumayo” e “Silêncio de Rádio”

Horrores da violência colonial na Amazônia e da violência política contemporânea no México

Páginas de um extermínio

“A borracha servia para apagar os índios”. A metáfora lavrada por Roger Casement no seu diário sintetiza os horrores que ele testemunhou enquanto viajava pela Amazônia peruana em 1910. A aventura denunciatória do cônsul britânico chega ao cinema num filme extraordinário de autoria do manauara Aurelio Michiles, um dos cineastas mais legitimamente identificados com as questões amazônicas.

Ouso dizer que Segredos do Putumayo é o ápice da obra de Michiles, que já abordou a Amazônia pelas perspectivas histórica, humanística e culturalista. Teatro Amazonas privilegiou o aspecto humano da construção daquele marco da cidade de Manaus. O próprio cinema foi contemplado com O Cineasta da Selva, sobre Silvino Santos (filme que desenha uma pequena genealogia do cinema amazonense), Tudo por Amor ao Cinema, perfil do conservador de filmes manuara Cosme Alves Neto, e Que Viva Glauber, que destacou a passagem de Glauber Rocha pelo Amazonas. O ciclo da borracha já havia aparecido em A Árvore da Fortuna.

Quando o humanista irlandês Roger Casement foi designado cônsul no Brasil, a borracha era o ouro elástico que enriquecia o Império Britânico. Acionistas ingleses controlavam a Peruvian Amazon Company, que, por intermédio de gestores peruanos brancos e capatazes trazidos de Barbados, exploravam os seringais na área da Tríplice Fronteira (Brasil, Peru e Colômbia). Numa viagem investigativa de quatro meses, Casement registrou e tornou públicas as atrocidades cometidas contra os indígenas das etnias Uitoto, Bora, Okaina e Muinane. Viu e fotografou índios acorrentados ou ferrados nas nádegas como gado, relatou estupros, açoites, torturas e assassinatos a sangue frio, num processo que combinava escravização e extermínio puro e simples. Índios eram também recrutados para reprimir seus semelhantes e mantê-los sob o jugo do trabalho extenuante.

Depois de publicados na Inglaterra, os diários abalaram as convicções britânicas sobre o colonialismo. Casement, porém, acabou enforcado por alta traição em vista de suas atividades revolucionárias em prol da independência da Irlanda. Para ler os trechos do diário, Michiles convidou o ator irlandês Stephen Rea, que foi casado com a célebre ativista do IRA Dolours Price. Assim, além de ter uma narração de grande propriedade, o filme fechou o círculo que unia a Irlanda e a Amazônia em Roger Casement. Isso sem contar a controvérsia sobre a origem da palavra Brasil, que consta da mitologia irlandesa como uma ilha imaginária.

Silvino Santos, o cineasta da selva contratado pelo empreendedor peruano Julio Cesar Arana, preposto da Peruvian Amazon Company, para filmar o que resultaria no clássico No Paiz das Amazonas, atendeu ao patrão omitindo a violência colonial por ele praticada. Aurelio Michiles reverte aquele olhar com uma pesquisa extensiva de materiais de arquivo, entrevistas de Angus Mitchell (historiador que editou os diários de Casmement) e Milton Hatoun, além de testemunhos de indígenas descendentes dos que sofreram nas mãos dos Arana. Em La Chorrera, município da Amazônia colombiana (a mesma área filmada por Silvino Santos e recentemente dominada pelas FARC), Michiles encontrou indígenas politizados e habilitados a contar o que se deu com seus antepassados. São falas de imensa força evocativa e poética.

A fotografia em preto e branco de André Lorenz Michiles, admirador de O Abraço da Serpente e de filmes soviéticos, é esplendorosa. Transfigura a imagem da floresta, trocando o fascínio habitual do verde por uma palheta eivada de misticismo e ressonâncias históricas. São imagens ora grandiosas, ora intimistas, que oscilam entre os arquivos do passado e a captação do presente, num fino e sutil diálogo conceitual. As histórias irlandesa de Casement e amazônica dos índios se entrelaçam numa arquitetura narrativa exemplar.

A revolta do cônsul britânico contra os exterminadores (“Eu seria capaz de matá-los como a cobras ou jacarés”) repercute na implícita indignação de Michiles ao contar essa história. Uma indignação que fica mais explícita quando insere fotos da violência policial contra indígenas nos dias atuais. Nunca houve punição para os responsáveis pela morte de cerca de 30 mil índios na região do rio Putumayo. Quem responderá no futuro pela dizimação em curso no momento?


Duas vozes de coragem

A sequência inicial de Silêncio de Rádio (Radio Silence) é uma manifestação pedindo justiça para o assassinato de um famoso jornalista em 2017. Uma das vozes ao microfone é da jornalista Carmen Aristegui, símbolo da resistência jornalística aos desmandos históricos do PRI, o partido que dominou a política no México por quase todo o século XX. Carmen já estava sendo filmada há dois anos pela documentarista Juliana Fanjul, desde que foi demitida da rádio MSV em 2015. Ela também poderia estar na mira de assassinos.

O assassinato de jornalistas – assim como a morte ou desaparecimento de opositores, camponeses e estudantes – foi uma prática comum no México do PRI. Carmen Aristegui é idolatrada por sua coragem para denunciar vários tipos de corrupção dos governantes. Foi demitida quando se solidarizou com os jornalistas que expuseram a troca de uma luxuosíssima mansão para a mulher do presidente Enrique Peña Nieto por um contrato com uma empreiteira. Uma petição com 200 mil assinaturas não foi suficiente para reverter a demissão.

Tudo isso se explica no contexto de uma tradicional aliança entre o PRI e a mídia privada, em especial a Televisa, uma espécie de Globo mexicana. Com sua pequena e brava equipe, Carmen resolve criar seu próprio canal de notícias na internet, trabalho que o filme acompanha de maneira um tanto limitada e superficial. A campanha de ódio e as ameaças sofridas por Carmen, inclusive com a invasão clandestina de sua redação, chegam até a documentarista, que diz estar sendo seguida por veículos suspeitos.

O eixo principal do documentário é a admiração da diretora por sua personagem. É curioso que Carmen praticamente não fale para a câmera de Juliana. Nem mesmo ouvimos as famosas transmissões que fizeram sua reputação na rádio. Boa parte do que tomamos conhecimento é através da voz quase sussurrada da cineasta, não da de Carmen. São duas vozes femininas corajosas. É Juliana quem faz o diagnóstico mais completo da violência comum na política mexicana, suas relações íntimas com o narcotráfico, a prostituição e o crime organizado. Ela lamenta que seus compatriotas tenham aprendido a conviver com a cultura da corrupção.

Ainda assim, a vitória de López Obrador em 2018 traria um sopro de renovação, mesmo ao custo de uma anistia dos governos anteriores. Carmen recobrou um lugar em outra grande emissora de rádio para transmitir suas notícias. Se estará a salvo, só o tempo dirá.

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