Era outra vez na Anatólia

O CONTO DAS TRÊS IRMÃS no streaming

É triste, é bonito de morrer, é uma joia de realização. O Conto das Três Irmãs é mais um grande filme turco que se projeta no cenário internacional. Com ele, Emin Alper pode não se igualar ao mestre Nuri Bilge Ceylan, mas chega muito perto. Em outro sentido, chega bem longe com sua história passada num vilarejo remoto da Anatólia, região rural da Turquia.

Alper administra com maestria as informações sobre o velho Sevket e suas três filhas, enviadas para casas ricas na cidade como beslemes (filhas adotivas e empregadas domésticas). Quando o filme começa, Havva, a mais nova, está regressando ao vilarejo, devido à morte da criança de que ela cuidava. A mais velha, Reyhan, já voltara meses atrás para dar à luz um bebê bastardo e se juntara a um pastor de ovelhas com personalidade instável. A do meio, Nurhan, havia tomado o lugar de Reyhan no emprego e será devolvida por desagradar à família dos patrões.

Assim, as três irmãs voltam a se reunir sob o jugo paterno, enquanto alimentam a esperança de voltar à cidade. Um pouco como as Três Irmãs de Tchekhov, à diferença de que estas se afeiçoaram às famílias a que serviam. Ainda assim, o elo fraternal se mantém forte, gerando talvez as duas melhores cenas do filme: a conversa de Reyhan e Nurhan sobre sexo enquanto fazem oscilar um barril de ayran (refresco à base de iogurte) e o diálogo terno e comovido entre Reyhan e a pequena Havva a respeito de seus respectivos sonhos, quando as atuações das atrizes atingem o nível do sublime bergmaniano.

Das histórias da cidade só vemos os rebatimentos e ouvimos os relatos, ficando o filme inteiramente circunscrito ao pequeno povoado cercado de montanhas. A concentração dramática é intensa, agravada no terceiro ato pelo isolamento do vilarejo no inverno e por um drama paralelo envolvendo os descontroles do pastor.

Fica clara a divisão entre o mundo dos homens, ocupado pelas medidas práticas e o funcionamento de uma sociedade ainda arcaica e patriarcal, e o universo das mulheres, voltadas para os serviços, a sensibilidade e os afetos. Uma quarta e ocasional personagem feminina, espécie de louca de aldeia, exemplifica o destino da mulher que rompe com a ordem e se torna uma pária social.

Ao mesmo tempo que conjuga harmonicamente os temas da exploração paterna e das relações de classe, O Conto das Três Irmãs oferece um espetáculo visual de grande beleza. O diretor de fotografia Emre Erkmen ilumina exteriores e interiores com virtuosismo pictórico, enquanto as atrizes demonstram ter compreendido cada nuance do drama de seus respectivos personagens. Eis um desses filmes capazes de ressoar em nossa lembrança por um bom tempo.

O Conto das Três Irmãs está no Now e no Vivo Play

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