O céu pode esperar por Pessoa

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS na Mostra de SP

Chico Diaz, um dos melhores atores brasileiros, há tempos não encontrava no Brasil um papel de protagonismo e relevância tão grandes quanto o que o mestre português João Botelho confiou-lhe em O Ano da Morte de Ricardo Reis. E Diaz não perdeu a oportunidade de oferecer uma de suas performances ricas em sutilezas e compreensão profunda do papel. No caso, a compreensão de que ele fazia um personagem, em certa medida, inexistente.

Ricardo Reis era um dos heterônimos de Fernando Pessoa, o mais clássico no sentido conservador e arcaizante da palavra. Monarquista, helenista e epicurista, formado em Medicina, Ricardo Reis teria nascido um ano antes do próprio Pessoa e morrido em data indeterminada. No livro homônimo que deu origem ao filme, José Saramago estabeleceu 1936 como ano da morte. E criou uma história fantástica, que começa na virada de 1935 para 1936, quando Reis retorna de uma temporada de 16 anos no Brasil, para onde emigrara em fuga do regime republicano recém-implantado em Portugal. Ele volta a Lisboa movido pela notícia da morte de Fernando Pessoa.

Encontra Portugal mergulhada no salazarismo, com a religião ocupando mais e mais o poder. Ao mesmo tempo, havia o fascismo de Mussolini, o nazismo de Hitler e a ameaça franquista no horizonte da Espanha. Uma boa época para se estar morto, poderia cogitar Pessoa. Mas nada disso parece abalar Ricardo mais que outro encontro fenomenal: o próprio Pessoa lhe aparece na pele do ator Luís Lima Barreto, tirando partido dos oito meses que lhe restam de convivência como morto entre os vivos. Esses diálogos, da lavra deliciosa de Saramago, são pérolas de bom-humor filosófico e ironia literária.

Pessoa volta da tumba sem óculos nem chapéu. É visto só por quem ele deseja, e lamenta não esperar mais nada – nem mesmo a hora de morrer, pois esta já passou. Em dado momento, cochila e sonha que estava vivo. Ricardo também tem sua vez de sonhar com uma hilariante passagem pela romaria de Fátima. Talvez por ter falecido o seu criador. Ricardo adquire uma vida própria, na qual exercita seus dotes de machista empertigado e médico duvidoso. Estabelece dois romances paralelos, com uma criada do hotel (Catarina Wallenstein) e com uma hóspede que tem a mão paralisada desde que perdeu a mãe (Victoria Guerra).

Nos contatos entre Ricardo e essas duas lindas mulheres, João Botelho lança mão de uma estética de filme noir, gênero que por sua vez absorvia o chiaroscuro e a abundância de sombras do expressionismo alemão. Sombras, espelhos e máscaras de carnaval aludem à multiplicidade dos heterônimos. A fotografia (em preto e branco à exceção do epílogo) de João Ribeiro (Cartas da Guerra) é primorosa no trato de uma Lisboa metida em inverno chuvoso e nevoento, que faz confundirem-se os limites entre fantasia e realidade.

João Botelho é responsável por clássicos do cinema português como Conversa Acabada, Um Adeus Português, Três Palmeiras, Tráfico e O Livro do Desassossego, este sobre o volume póstumo de Fernando Pessoa. Um cineasta sólido, dono de um estilo elegante que deixa escapar as mil ambiguidades do texto de Saramago. O Ano da Morte de Ricardo Reis começa e termina em cemitérios. No primeiro, diante da sepultura de Eça de Queirós, em cuja lápide se lê: “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”.

Em sua mordacidade com a política, o amor e a escrita, Saramago e Botelho atualizam uma cara tradição da literatura portuguesa expressa nas palavras de Eça.

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