O terreiro na intimidade

FAMÍLIA DE AXÉ 

Em 1985 Tetê Moraes filmou um pequeno terreiro de candomblé em Salvador para um documentário da BBC. Desde então, manteve-se próxima da grande família que não parou de crescer em torno da casa do bairro da Federação. Uma das jovens dali chegaram a vir trabalhar na casa de Tetê, no Rio, e depois no Circo Voador. É uma relação de mais de 30 anos que transparece com frequência nos abraços, nos sorrisos e nas conversas entre a  cineasta e os personagens do seu novo documentário, Família de Axé.

Assim se forma o conceito de família de axé, à margem das famílias de sangue de cada um e em busca de laços ancestrais. Sob a proteção do babalorixá Alberto Ribeiro de Santana, falecido subitamente em novembro de 2019, congregam-se dezenas de parentes e agregados. Nem todos têm o dom de “incorporar” os orixás, mas desempenham funções específicas no dia a dia do terreiro. Seja procurar ervas no mato para os banhos, por exemplo, seja mesmo limpar o suor dos participantes dos rituais e cuidar para que os orixás não tropecem e deixem cair a roupa.

O filme de Tetê combina o olhar afetuoso sobre a sua “família” com um interesse informativo a respeito das rotinas e seus significados no terreiro. Uma etnografia amorosa, digamos assim. Não se trata de curiosidade pelo exótico, mas de um sincero desejo de compreender e repassar essa compreensão. Mesmo que isso signifique permanecer na superfície de rituais, festas e “obrigações”, sem forçar a passagem pelo limiar dos segredos do candomblé como fez o clássico Iaô, de Geraldo Sarno.

Além de reafirmar com frequência sua afinidade com o pessoal do terreiro, a diretora abre espaço para a relação de carinho e admiração nutrida por gente “de fora”, como a produtora Maria Juçá e os artistas da família Liberato (o cineasta e artista plástico Chico, a roteirista Alba e a atriz Ingra). O Terreiro Ylê Axé Ya Omin Dé, originário do colo de Mãe Menininha do Gantois, é de fato um patrimônio da cultura afro-brasileira.

Família de Axé tem uma informalidade que às vezes se confunde com desleixo na realização, embaraços de montagem e fragmentação excessiva. Sua força está mesmo na abordagem simples e direta, como a de um amigo que chega para saborear a companhia, saber notícias e levar boas lembranças.

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