Transexual e militar

MARIA LUIZA no streaming

Em 1978, José Carlos da Silva alistou-se na Força Aérea de Brasília. Saiu 22 anos depois como Maria Luiza da Silva, forçada a se aposentar por invalidez depois de declarar-se como transexual. Seu caso, pioneiro nas Forças Armadas brasileiras, é abordado no documentário Maria Luiza, de Marcelo Díaz (conheça o site oficial do filme)

A fala pausada e emotiva de Maria Luiza dá o tom do filme. Quase sempre contendo as lágrimas e evitando entrar em certos detalhes, ela conta sua história desde a inadequação que sentia quando criança. Na juventude, chegou a suspeitar de que estivesse grávida, embora fosse ainda um rapaz. Não convém contar aqui tudo por que ela passou, uma vez que esse relato cronológico é que vai descortinando os dramas de uma pessoa sendo obrigada a ser aquilo que não é.

Há, porém, alguns dados curiosos. Maria Luiza chegou a se casar e ter uma filha. Desde cedo, foi apaixonada por carros e aviões, característica mais comumente associada ao masculino. Isso a levou a escolher a carreira militar, como mecânica de aviação. Católica, cabo tida como exemplar na corporação, não tem o perfil de contestadora. Ainda assim, a obstinação em ser mulher a levou a desbravar caminhos inéditos, como o de ser autorizada pela Aeronáutica a tomar hormônios femininos. Da cirurgia de redesignação sexual à conquista de uma nova carteira de identidade militar como Maria Luiza, trata-se, sem dúvida, de uma trajetória vitoriosa.

Marcelo Díaz pontua o documentário com um sugestivo ensaio fotográfico sobre a protagonista, além dos elaborados desenhos de Maria Luiza e de uma atenção a detalhes de sua cenografia doméstica. Foi só num desenho, por exemplo, que ela pôde dar vazão a seu desejo de voltar a vestir a farda, agora com mulher.

O diretor é respeitoso para com os silêncios que ela prefere guardar, mesmo que isso reduza um pouco o alcance do retrato. Outro elemento de destaque no filme são os depoimentos do psiquiatra e professor Gabriel Graça, transgênero desde 2015, quando já tinha 48 anos. De maneira muito persuasiva, ele explica como a identidade de gênero não é uma questão cultural, mas biológica e pré-verbal.

Vale ressaltar, ainda, que a repercussão desse documentário ajudou Maria Luiza a obter na Justiça a recomposição de sua aposentadoria como subtenente em maio último. É certo que o cinema não pode mudar o mundo, mas que pode dar um empurrãozinho, lá isso pode.

Maria Luiza está disponível nas plataformas Now, Youtube, AppleTV, Google Play, Oi Play, Vivo Play e ITunes

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