Eduardo Coutinho: a preservação do lugar de enunciação

Artigo de Bianca Dias, publicado originalmente na Revista Caliban

Encontrar um lugar para o cinema de Eduardo Coutinho não é tarefa fácil, pois a envergadura e a espessura do seu pensamento desterritorializam qualquer cartografia pronta. A Ocupação Eduardo Coutinho – de curadoria de Carlos Alberto Mattos e equipe do Itaú Cultural, em cartaz no Instituto Moreira Sales, no Rio de Janeiro, depois de passar por São Paulo – é um trabalho primoroso sobre o legado de um artista ímpar.

Um olhar atento e sensível – sobre as realizações e um valioso material de arquivo – revela o percurso de um cineasta brilhante e expõe uma biografia que se cruza com a obra de maneira nada linear, a vida como escritura no sentido mais psicanalítico: o que se revelam são trilhas abertas nos campos poético e político, sustentando diálogos maiores entre o singular e o comum.

Se a voz e a dicção de Eduardo Coutinho aparecem em seus filmes, é pela via da escuta profunda e da sustentação do silêncio enigmático ou da frase exata que extrai do encontro seu ponto nevrálgico. Com frescor e sensibilidade, o diretor recolhe da escuta fina a pura presença da alteridade e ele mesmo é quem afirma:

Eu odeio o jornalismo. Não estou interessado em jornalismo. Não estou interessado em informações, mapas, em filme militante, em filme político. Deus me livre. Aquecimento global, liberar maconha. Não estou interessado em filmes políticos, sociais, genéricos. Nada que é genérico me interessa. Quero saber das pessoas que eu filmo, só. Então comigo é uma exceção, um tipo de cinema particular que eu faço, do qual é o único que eu sei falar. Não falo sobre o cinema em geral porque, bom, o documentário pode ser tudo, né? Jornalistas podem fazer excelentes documentários jornalísticos, evidente. O Michael Moore é jornalista, no fundo um cineasta, e que é um tipo engraçado e tal, mas que é um populista evidentemente de esquerda e que, enfim, usa metas que eu não usaria. Mas é um cara altamente eficaz, está milionário e tal, mas é jornalismo. E seus filmes são úteis? São, em certa medida são. Tratar dos assuntos que ele trata, agora, as metas que ele usa, não me interessam.

Para o psicanalista Jacques Lacan, não existe enunciado de verdade, mas apenas sua enunciação. E se Lacan introduziu a distinção entre enunciado e enunciação, ele o faz justamente para que a função do enigma possa se destacar. Assim o faz também Eduardo Coutinho que, num lugar de enunciação, faz preservar o grão de mistério que advém de cada fala, o ponto de furo de cada discurso, a flutuação entre quem fala e a dispersão que esse lugar de fala engendra. À Coutinho interessava o lugar da enunciação que, diferentemente de uma autoridade na fala, revela justamente esse algo delirante, plural e nômade da constituição da subjetividade.

Para a psicanálise, falar de si é escapar de um centro. O eu que se anuncia o faz a partir de uma margem, de um espaço desviado. Em cada processo, Coutinho revela seu desejo por aquilo que se confessa mas que, antes de ser pura revelação de um eu, é trama ficcional. Os objetos e fotografias – de seu acervo pessoal e de amigos e colegas de profissão – revelam essa ideia de sujeito que, mais do que autorizar-se a partir de um lugar afirmativo pronto, está sempre à deriva. O eu da enunciação é, portanto, dividido e, quando fala, fulgura o acontecimento no tremor da língua, na superfície das coisas.

Em determinado momento, Coutinho afirma que não gosta da palavra “profundo” por entender que é na superfície que se recolhem os gestos, os lapsos, a diferença. Ele faz uma crítica desse sujeito com pretensa profundidade, mas como quem perdeu o essencial: a curiosidade pelo outro e pela imanência das coisas. O que não falta ao cineasta – para quem o melhor repórter do mundo é uma criança, que é sempre uma investigador de coisas aparentemente protocolares – é o olhar onde tudo se desloca e nada está propriamente entendido. Em “Últimas conversas”, uma criança diz com olhos vivos que “Deus é um homem que morreu e a gente chama de Deus”.

Eduardo Coutinho não se interessava pelas classes, mas pelo outro. Em “Edifício Master” ele afirma:

Eu quero simplesmente tentar ver como as pessoas vivem aquilo. Porque como eu não vivo aquilo, se eu tivesse a minha idade e tivesse morando lá eu dizia “pô, fim de linha, que fracasso”. Depende, as pessoas que eu encontrei lá, tem um aposentado que esteve nos Estados Unidos, têm pessoas de classe média que estão lá um período da vida que depois saíram de lá e também foram para Alemanha, o cacete. Tem de tudo lá: classe média baixa, média e meia média. Entende? Então o que me interessava era conhecer isso, o que é viver naquela cidade. Paris, Moscou, Nova York, é tudo igual. Você encontra a mesma solidão. Um cara que mora numa quitinete e que morre, dez dias depois alguém encontra pelo cheiro porque era solitário. Se encontra aqui, se encontra em Nova York, se encontra em todo lugar.

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Assim Coutinho circulava pelo mundo, perscrutando caminhos heteróclitos como em “Santo Forte”, mergulhando na mitologia e no mistério como construção da singularidade. Há ali muitas dimensões da fé, do sincretismo religioso, da reza que é quase poesia. Coutinho é, no seu próprio dizer, um materialista mágico. Mas soube capturar o insondável de cada sujeito: as expressões do rosto, as sutilezas do olhar, o traçado dos gestos.

Em “Babilônia 2000” a dimensão ética de seus procedimentos comparece de maneira impressionante: o espaço para a ficção de si, para uma espécie de autofabulação sobre cada vida está pulsando. O que ele perseguia era justamente “o teatro da vida”, a maneira ou saída que cada um encontra para endereçar sua fantasia ao outro, ao mundo. Ele diz: “Quero da pessoa o impulso de se construir enquanto está comigo, quero que ela construa um retrato de si mesma”. Para Coutinho, a presença da câmera funda uma ética e cria um espaço de enunciação que diverge de qualquer vontade de verdade filosófica ou matemática. Trata-se da maneira mais aguda que cada sujeito toma sua ficção para si e a devolve ao mundo. E essa ética fundada pela câmera – terceiro elemento, mediação e revelação – está viva na exposição com rascunhos, manuscritos, fotos que revelam a história de um país e a maneira como o campo do pessoal e do comum se entrelaçam.

Em tempo de trevas e degradação, acompanhar a vida de Eduardo Coutinho – uma vida estendida em filmes, desejos e agudeza de visão – é uma tarefa que flerta com algum sentido utópico. Na trilha do real, Coutinho descortina um tempo que se estende em feridas profundas e abertas. Como profecia, “O fim e o princípio” captura a fala tão exata quanto delirante de um homem que diz que, quando fez o mundo, Jesus empregou uma palavra só, uma palavra certa, mas o homem construiu a palavra e o dicionário e, então, foi construída uma alta torre que ia até as nuvens, para confundir todas as palavras da humanidade e assim foram feitas todas as terras na cidade de Babel. Não me lembro se era exatamente assim, mas dessa extração cultivada no mais profundo da cultura e no mais pulsante “fora”, no mais rico delírio, podemos entrever os  termos do cinema de Coutinho e sua decisão ética de escolher um caminho construído no risco e contramão de um lugar estanque e fixo de onde se fala. E é ele mesmo quem afirma e reafirma, de maneira brilhante, uma decisão pelo lugar da enunciação:

Tem um monte de filmes que se aproximam do outro. Quem é o outro? O outro é o pobre miserável. O cara com defeito físico, o destituído tal, tal. E quem filma geralmente é uma pessoa de classe média, mesmo que com origem proletária. E tem a mania, americano adora isso, de tratar de forma paternalista. E daí o povo adora e chora e sente culpa. Isso é coisa que eu me recuso a fazer. Isso é uma coisa proibida em meu dicionário. Michael Moore, tem uma hora que ele abraça uma mulher lá que foi vítima, pra que ir lá e abraçar? Você tem que guardar distância da pessoa, não tem que consolar ninguém. Ou se consola, faz isso fora do filme. Então existe o “humanismo” entre aspas, que os americanos adoram, que é filmar o pobre. O cinema humanitário é o pior cinema do mundo. O humanitário ou de mensagem. Al Gore, ou então, mensagem. E a outra coisa de americano é essa: se é um filme sobre negra e lésbica tem que ser filmado por negra e lésbica. Sabe? Iguais filmam iguais. Quando a minha tese é outra: negro tem que filmar branco e camponês tem que filmar negro e tem que trocar. Índio tem que começar a filmar branco e branco… sabe? Nada impede que branco filme índio. Precisa dos dois lados, um do lado de dentro, um de fora. Não tem sentido que um filme sobre metalúrgico só pode ser feito por metalúrgico. Isso é uma tolice. O multiculturalismo que botou isso na cabeça. Então pra filmar uma lésbica eu tenho que ser lésbica? É o mesmo do mesmo, entende? Não há conflito. Não vou ao cinema para ser educado, pra aprender o bem. Odeio esse tipo de coisa tipicamente americana.

A “Ocupação Eduardo Coutinho” desvenda o que o poeta Ricardo Aleixo chama de “lugar de falha”: esse ponto onde a fala bascula, desloca de um si mesmo e alcança o outro no enigma que dele provém.

⇒ Bianca Dias é psicanalista, crítica de arte e autora do livro Névoa e assobio

 

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