Poetisa e Benjamim no Fest Brasília

A mostra paralela online do Festival de Brasília, com curadoria de Cavi Borges, tem algumas vantagens sobre o resto da programação. O acesso é livre em plataformas gratuitas e se estende por todo o período do evento, ou seja, até o dia 20 através deste site. O cardápio de filmes é diversificado e inclui pérolas como A Noite do Espantalho, de Sérgio Ricardo, A Lenda de Ubirajara e Meteorango Kid, de André Luiz Oliveira, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, O Profeta da Fome e Bebel, Garota Propaganda, de Maurice Capovilla, Sagrada Família, de Sylvio Lanna, O Mágico e o Delegado, de Fernando Coni Campos, e os curtas Rocinha Brasil 77 e Cinemação Curtametralha, de Sérgio Peo.

Há também filmes inéditos, entre os quais comento a seguir dois deles: Poetisa, de Noilton Nunes, e Benjamim Zambraia e o Autopanóptico, de Felipe Cataldo.  

Poetisa – acidente, golpe, coma

Noilton Nunes é um cineasta idiossincrático. Atuando fora de todos os sistemas de produção estabelecidos, ele tampouco se afina com qualquer corrente, mesmo do cinema independente. Leva anos para realizar um filme, que nem sempre dá por concluído. É o caso de Poetisa, cujo projeto começou a ser gestado em 2010.

A meio caminho, Noilton perdeu a atriz principal, a mimosa brasileiro-colombiana Gabriela Cordovez. Suspendeu as gravações por longos períodos por absoluta falta de orçamento, antes de retomá-las recentemente e fechar o corte que se vê no festival. Nesse intervalo, comentou extensivamente o processo nas redes sociais.

Poetisa tem toda pinta de filme ainda em processo, no qual o diretor aparece falando sobre suas intenções e expondo suas dificuldades. Não há propriamente uma história a seguir. Noilton mistura aleatoriamente sua indignação política com o golpe de 2016, rememorado em cenas da TV, e os cuidados da protagonista com o marido que está em coma depois de um acidente. A referência é ao cineasta Fabio Barreto, que permaneceu em coma por dez anos, mas também se pode ver ali uma metáfora do povo em coma durante o período do golpe, a prisão de Lula e a campanha presidencial de 2018.

Perdoada uma traição que os havia separado, Poetisa lhe conta histórias e comenta o horror político brasileiro. Uma série de flashbacks vem à tona através de materiais filmados em diversos lugares e diferentes épocas. Imagens “roubadas” da internet e da produção do próprio Noilton formam uma colagem precariamente contextualizada por falas arbitrárias.

Não vem ao caso apreciar a direção de atores e a roteirização, uma vez que arte dramática e lógica narrativa não parecem estar entre as maiores preocupações do diretor.  O que ele quer é falar do tempo em que engendrou essas ideias, além de prestar homenagem póstuma aos amigos Fábio, Conceição Senna, que participa numa sequência, e Jesus Chediak. Poetisa, então, se equilibra na corda bamba entre o rascunho ficcional e o libelo político, entre o desejo de fazer um filme e sua efetiva concretização.

Leia ao final do post a contestação do diretor Noilton Nunes, publicada originalmente no seu Facebook.


Benjamim Zambraia e o Autopanóptico – o estorvo na imagem

O personagem do primeiro longa de Felipe Cataldo é o mesmo do romance Benjamim, de Chico Buarque, de onde foram tiradas várias citações textuais. Mas esse Benjamim (vivido pelo próprio diretor) não está atrás de nenhum rosto feminino, nem se meteu com vestígios da ditadura militar. Ao contrário, é um jovem beberrão que vagueia pela cidade e é tratado ora com mimos, ora com porrada pelos pais (Helena Ignez e Otávio Terceiro).

Como no livro do Chico, o rapaz é obcecado por uma grande pedra. Além disso,  vive com a sensação de que está sendo filmado, ao passo que o narrador diagnostica, buarqueanamente: “as imagens ricocheteando no bojo do seu crânio”. Aqui e ali, uma câmera flutua, autônoma, em torno dele, até fenecer em chamas junto a um balde de pipocas.

De tanto avançar na invenção, Felipe nos leva de volta às fulgurações mais radicais do cinema marginal. É difícil fazer associações narrativas ou mesmo conceituais no jorro de imagens e sons. Seria Benjamim uma figuração do homem contemporâneo, que se sente observado por uma câmera panóptica que filma em todas a direções e está em todos os lugares?

As deambulações de Benjamim se alternam com cenas performáticas em diversas áreas do Rio de Janeiro, cidade que se impõe como um personagem frontal. O humor dá as caras em momentos específicos – como nos encontros de Benjamim com os pais ou nas pessoas que aparecem fumando de tudo, inclusive latinhas de cerveja e fitas VHS.

Os poucos diálogos são completamente dessincronizados (lembrando experiências de Sylvio Lanna), cenas correm ao reverso, a edição inviabiliza qualquer ilusão de continuidade. O que acabou prevalecendo no meu interesse foi a intensa experimentação com o material fílmico. E aqui uso a palavra “fílmico” no seu sentido lato. O trabalho de Felipe Cataldo se distingue pelo uso de película, que ele manipula ostensivamente em laboratório para criar texturas, “sujeiras” e “ferimentos” na imagem. Estorvos, por assim dizer.

O resultado é ora alucinógeno, ora agressivo ao olhar. É preciso compreender e aceitar esse excesso como parte de uma proposta implacável de adulteração do material. Como Benjamim, saímos do filme com as imagens (e os sons) ricocheteando no bojo do nosso crânio.


Contestação do diretor Noilton Nunes à minha resenha do filme Poetisa

“A crítica criticada.

“Noilton Nunes é um cineasta idiossincrático.” Significado de Idiossincrático: Adjetivo próprio e particular de uma pessoa; Característico do comportamento. Idiossincrático é uma expressão usada para fazer referência, muitas vezes, a situações incomuns ou até impróprias. idiossincrasia, é a maneira de ver, de sentir e de reagir, própria de cada pessoa. É uma forma incomum de se portar perante a sociedade. Idiossincrático é a predisposição do temperamento de um indivíduo, que faz com que ele sinta de um modo especial e muito seu a influência de diversos agentes. É agir fora dos padrões normais, dos padrões esperados. Todas as pessoas têm suas preferências, suas simpatias e idiossincrasias, ou seja, seu modo de ver, sentir e reagir diante de seus conceitos e sua visão de vida. Em psicologia, idiossincrasia é o conjunto de elementos cuja combinação
dá o temperamento e o caráter individual. É a particularidade psíquica de um indivíduo.”Atuando fora de todos os sistemas de produção estabelecidos, ele tampouco se afina com qualquer corrente, mesmo do cinema independente.”
Dito e escrito assim, até parece que nosso cineasta idiossincrático é uma alma do outro mundo. Um Zumbi, um refugiado naufragado, resgatado nos mares do Mediterrâneeo. Como não se afina com nada e ou ninguém? Ele é Presidente do Movimento dos Sem Tela. Mantém uma atividade política permanente em prol da democracia nas comunicações; pelos direitos humanos, pela preservação do nosso patrimônio material e imaterial, pela liberdade de expressão, pela ecologia, sempre contra o racismo e o fascismo. Participou de quase todas as grandes e pequenas manifestações de rua; de dezenas de assembléias em sindicatos, associações como a ABI e OAB, que aconteceram nos últimos anos, levando a bandeira da Paz e do entendimento entre os povos e pelo fim da violência; gritando alto contra os filmes made in USA subsidiados pela indústria bélica para vender armas, uniformes militares, guerras, miséria.
“Leva anos para realizar um filme, que nem sempre dá por concluído. É o caso de Poetisa, cujo projeto começou a ser gestado em 2010.”
É preciso que as autoridades competentes e os estudiosos do cinema mostrem o que nosso cineasta idiossincrático fez nos últimos dez anos e comparem com a produção dos maiores cineastas de todo mundo: A Paz é Dourada – A Saga de Euclides da Cunha, Em Busca da Terra Sem Veneno, Xingú – Você Já Abriu os Olhos?, Por um mundo mais Humano, Arte do Renascimento – cinebiografia sobre Silvio Tendler, Regina Antropóloga – Os Destinos dos Saberes, Sigilo Eterno, Lente Filmes apresenta e Poetisa.

“A meio caminho, Noilton perdeu a atriz principal, a mimosa brasileiro-colombiana Gabriela Cordovez. Suspendeu as gravações por longos períodos por absoluta falta de orçamento, antes de retomá-las recentemente e fechar o corte que se vê no festival. Nesse intervalo, comentou extensivamente o processo nas redes sociais.”
O corte que foi exibido no Festival de Brasília é fruto de uma grave crise de saúde que nosso cineasta idiossincrático sofreu em meados de setembro, quando quase teve um AVC. Ficou semanas se recuperando, falando e andando com muitas dificuldades. As imagens e sons do que tinha sido escrito, lido, ensaiado, gravado e pré editado como ensaios para o que pretendia transformar um dia em cenas bem filmadas, com recursos normais para sua plena realização, estavam perturbando-o demais e provocando pesadelos terríveis. De repente uma pesquisadora de São Paulo que está fazendo estudos sobre os filmes Ladrões de Cinema e Lente Filmes apresenta para a tese dela de doutorado, procurou nosso cineasta e fez com que ele abrisse seus baús até chegar ao sonho interrompido do Poetisa. Foi como uma explosão vulcânica dentro do cérebro dele, que passou a ter convulsões cinematográficas que botavam para fora todos os fotogramas, frames, frases, palavras e detalhes de sons esquecidos nas profundezas da memória. Era o Poetisa ou ele. Vida ou morte. Se ele não tivesse feito o que fez libertando todas as histórias represadas, todos os sonhos, todas as esperanças, todos os medos e jogado Poetisa nas arenas para ser devorada pelos cinéfilos, pelos críticos, pelos estudantes, pelos professores, pelos ativistas políticos, certamente ele teria morrido. Seria hoje mais um nome nas listas dos que tombaram na pandemia. E, Poetisa ficaria para sempre nas poeiras do esquecimento.

“Poetisa tem toda pinta de filme ainda em processo, no qual o diretor aparece falando sobre suas intenções e expondo suas dificuldades. Não há propriamente uma história a seguir.”Concordo. Poetisa é um filme em processo. Que bom. Mas, Poetisa além de desfilar com máscara que afasta a morte e as dores da separaçao, discute questões sobre avanços tecnológicos, eutanásia, democracia e liberdade de expressão. Tem uma bela história que pode ser muito bem seguida. Zé Celso escreveu: “Ví com enorme Prazer “Poetisa” hoje à noite.O Filme é Belo em si. Adorei a Atriz Gabriela. Pode dizer para ela vir fazer As Bacantes aqui no Oficina.
Magnífica Conceição Senna, o Ator Tyaro e a narrativa ligada à História Recente do Brasil.Noilton, você é Genial em seu Roteiro, Concepção, Fotografia e Metáforas.Tudo corre Lindo sem precisar das explicações, sobretudo as finais.Aceite seu Talento Poético de Cineasta. Deixa o Cinema falar por si. Você sabe fazer isso muito bem.A partir de agora quero ver todos seus filmes.” José Celso Martinez Corrêa.
“Noilton mistura aleatoriamente sua indignação política”.
Aleatoriamente? O crítico nesse quesito tira nota zero. As cenas que vão ilustrando o ir e vir de Poetisa entre uma visita e outra ao seu marido em estado de coma profundo, são super bem escolhidas e vão oferecendo ao espectador as lembranças do que foi acontecendo no Brasil, desde o golpe contra Dilma
aos dias de hoje.

“Imagens “roubadas” da internet e da produção do próprio Noilton formam uma colagem precariamente contextualizada por falas arbitrárias.”
Acusar nosso cineasta idiossincrático de ladrão? Imaginemos os filhos e netos dele lendo tamanha baixaria. Vão processar o crítico por racismo, no mínimo.
“Colagem precariamente contextualizada por falas arbitrárias”.
Que falta faz Luiz Rosemberg.
Fizemos um teste com alunos de cinema e o filme foi ouvido sem imagens. Ficou claro que pode virar um programa de rádio ou até mesmo ser montado nos palcos dos teatros.

“Não vem ao caso apreciar a direção de atores e a roteirização, uma vez que arte dramática e lógica narrativa não parecem estar entre as maiores preocupações do diretor.”
Arte dramática e lógica narrativa estão emoldurando as maiores preocupações do nosso diretor idiossincrático, pois estão focadas na possibilidade do filme chegar a um público formado pelas pessoas sobreviventes da pandemia e do isolamento; pessoas que vão ter que obrigatoriamente enfrentar as novas vidas normais, anormais e os monstros do neo fascismo tropical.
A última sequência de Poetisa é com o Movimento Negro dentro do Congresso Nacional gritando:
Parem de nos Matar: Racistas, Fascistas, Não Passarão e Reparação Já.
Que nosso crítico idiossincrático faça Reparação Já.”

Noilton Nunes

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