O mágico e o concreto

CIDADE PÁSSARO na Netflix

Na Nigéria em 1988, dois meninos se olham de ponta-cabeça. Essa imagem inicial vai fertilizar todo o restante de Cidade Pássaro. Trinta e um anos mais tarde, Amadi chega a São Paulo à procura de Ikenna, que emigrou e “desapareceu” do radar da família. A ligação entre os dois irmãos, atravessada por afetos e queixas, ecoa antigos traumas da família e toda uma mitologia da cultura Igbo, do sudeste da Nigéria.

Não é a primeira vez que Matias Mariani se volta para estrangeiros à deriva no Brasil. Junto com Maíra Bühler, corroteirista de Cidade Pássaro, ele já tinha realizado o DOCTV Exterior, sobre expatriados detidos em prisões brasileiras, e o longa documental A Vida Privada dos Hipopótamos, que enfocava Chris Kirk, hacker e traficante de cocaína americano que passou quatro anos num presídio brasileiro e fugiu do país durante a liberdade condicional. Nesse primeiro filme de ficção, o diretor aborda a comunidade de imigrantes africanos em São Paulo, o que configura uma visão bastante original da maior cidade brasileira.

Para se acercar dos nigerianos, Matias e Maíra deram aulas de português gratuitas em São Paulo e depois viajaram à Nigéria para conhecer a Igboland. Grande trunfo desse esforço foi a contratação dos conceituados atores nigerianos O. C. Ukeje (Amadi) e Chukwudi Iwuji (Ikenna). A atuação do primeiro, de uma precisão espantosa, nos mantém inteiramente conectados com a jornada do personagem.

Vemos São Paulo através dos olhos de Amadi, que precisa se integrar sem saber uma palavra em português. A fotografia excepcional de Leo Bittencourt, no formato 4×3 para enfatizar a verticalidade da cidade, sublinha o ponto de vista do estrangeiro, que tende a ser de baixo para o alto ou vice-versa. O espaço urbano é esquadrinhado em função ora do deslumbramento, ora da perturbação provocados em Amadi. Na Galeria Presidente, onde muitos comerciantes africanos têm seus negócios, o rapaz se emprega na loja de um tio, que comercializa cabelo humano de várias procedências (mais um indicativo da diversidade étnica da cidade). Outros locais icônicos, como a suntuosa Sala São Paulo, o prédio do SESC 24 de maio, uma ocupação e um bar de karaokê, dão lugar a algumas das cenas mais bonitas e sugestivas do filme.

Mas Cidade Pássaro não é apenas uma crônica do desenraizamento. É sobretudo a história da busca de Amadi pelo irmão. À medida que suas pistas vão sendo desfeitas, uma vez que Ikenna mentia tanto para a família como para os amigos brasileiros, Amadi vai encontrando rastros que podem levá-lo ao seu objetivo. Ele está encarregado de restaurar a unidade familiar e deslindar o laço aparentemente mágico que o liga a Ikenna. É onde se dá a operação mais ambiciosa do argumento de Matias Mariani, entrelaçando mitos nigerianos à física quântica.

Ikenna estava supostamente desenvolvendo uma teoria do físico holandês Erik Verlinde, que tenta explicar a gravidade e repercute na própria compreensão do tempo. Ikenna é um personagem ambíguo por natureza, que tanto pode ser um gênio como um escroque viciado em jogos e apostas. Por sua vez, a gradual aproximação de Amadi do irmão em São Paulo estaria ligada a elementos da mitologia Odinani, fator constituinte da comunidade Igbo da Nigéria. Nessa crença, cada pessoa tem um tutor espiritual, o seu “chi”. Pelo que eu entendi, Ikenni seria o “chi” de Amadi, razão pela qual prepara o caminho do irmão em São Paulo.

Algum mistério (ou mesmo indefinição) certamente ficará depois que termina o filme. Mas até ali já nos encantamos com as deliciosas interações à margem do idioma entre Amadi e Emília (Indira Nascimento), ex-namorada de Ikenna, e com as intervenções de diversas etnias de imigrantes na paisagem ultraconcreta da metrópole. Além da distintiva concepção visual, uma trilha musical tão eficaz quanto discreta, um tratamento sonoro delicadíssimo e uma montagem primorosa completam as qualidades de um filme singular para os padrões habituais do cinema brasileiro.

4 comentários sobre “O mágico e o concreto

  1. Pingback: O ano em que vivemos em perigo | carmattos

  2. Gostei muito do filme. A trilha sonora atonal, a visão de São Paulo. Tive de me certificar na internet de que o filme foi realizado por um brasileiro. A visão é de um outsider. Cheguei a pensar que o filme fosse de um nigeriano. Acho que vi o nome Reichembach na tela de um computador no filme. Ou estou obcecado…

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