Pequena suíte para quatro mulheres

A MULHER QUE FUGIU

Quando pensávamos que Hong Sang-soo havia chegado ao osso da expressão cinematográfica, lá vem um novo filme dele ainda mais minimalista e essencialista. Em A Mulher que Fugiu (Domangchin yeoja / The Woman Who Ran), simplesmente presenciamos três conversas entre duas ou três mulheres cada, com algumas interrupções masculinas. Como nos filmes de Eric Rohmer, isso é bastante para nos sintonizar com camadas mais profundas das personagens.

O eixo de tudo é Gam-hee, interpretada por Kim Min-hee, companheira e atriz-fetiche do diretor. Ela é uma florista casada que vive grudada ao marido. Nas três conversas ela vai repetir que pela primeira vez em cinco anos está passando um dia sem ele. O marido saiu em curta viagem de negócios e ela aproveita para visitar três amigas. Em cada uma, Gam-hee verá uma alternativa diferente ao seu modo de vida.

A primeira, divorciada, diz-se incapaz de passar tanto tempo junto a um homem sem desfrutar de sua privacidade. A segunda é uma mulher dada a aventuras passageiras e a terceira é uma velha amiga que havia roubado o namorado de Gam-hee anos atrás e agora está casada com ele. Nada disso parece abalar sua relação com as amigas, mas é possível perceber, nas filigranas do subtexto, uma nódoa de insatisfação no espírito de Gam-hee. A “elegante” dissimulação dos sentimentos é uma prática das personagens de Hong Sang-soo.

Os homens só aparecem de costas, como ruídos no fluxo dessas conversações amáveis e de rumos surpreendentes, nas quais o dito é tão importante quanto o omitido e o não mostrado visualmente. Durante a primeira visita, um vizinho vem reclamar da presença de gatos nas redondezas, mas o faz em nome de sua mulher. Na segunda, um rapaz com quem a amiga havia tido um encontro sexual fortuito reaparece para insistir na conquista. Na terceira, Gam-hee tem um desconfortável e hilariante reencontro com o ex-namorado.

O título pode aludir tanto a uma mulher citada numa das conversas, como à pequena fuga de Gam-hee nesses dias sem o marido. Assim o filme deixa um sutil comentário sobre relacionamentos, política sexual e diversidade feminina. Sem nenhuma ênfase, sem qualquer efeito a não ser o efeito de “verdade” propiciado pelos longos planos sem corte. Lá estão as repetições típicas do diretor com as frases recorrentes de Gam-hee, as referências à paisagem, as maçãs cortadas da mesma maneira em situações diferentes. E não faltam os zooms com que Sang-soo se permite “aquecer” de vez em quando a tomada. Nesse quesito, destaca-se a cena roubada por um gato, pura celebração das maravilhas do acaso numa filmagem.

♦ A Mulher que Fugiu será lançado no Brasil em 2021

Abaixo, o curioso trailer sem falas:

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