“O Orfanato” e uma nova plataforma

Cena de “A Camareira”

Distribuidores e exibidores estão sendo obrigados a se reinventar para atrair espectadores sem necessariamente trazê-los às salas de cinema durante a pandemia. A saída tem sido criar suas plataformas online próprias. Talvez o exemplo mais bem sucedido até agora no Brasil seja o Belas Artes à la Carte, streaming do Cine Belas Artes, de São Paulo. Uma nova iniciativa do gênero, que também promete qualidade e diversidade, é a plataforma da distribuidora Supo Mungam, a Supo Mungam Plus.

Contando já com um acervo atraente de filmes de arte, diretores consagrados e novas vozes do cinema, a plataforma promete bons relançamentos nas próximas semanas. Entre eles, Em Busca da Vida, obra-prima de Jia Zhang-ke, Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, e O Funeral das Rosas, de Toshio Matsumoto, um clássico da Nouvelle Vague Japonesa.

Quem passar por lá já pode assistir ao sublime O Conto das Irês Irmãs, uma das melhores estreias de 2020, ou ao mexicano A Camareira, sucesso de público, crítica e festivais. Também estão disponíveis filmes de Agniezka Holland, Atom Egoyan, Eugène Green, Abderrahmane Sissako e Christian Petzold, entre outros.

Devaneios de Bollywood

Um dos títulos mais curiosos no acervo da Supo Mungam Plus é o afegão O Orfanato (Parwareshghah), drama adolescente com pitadas de Bollywood passado na Cabul de 1989, quando os soviéticos encerravam seu domínio sobre o Afeganistão. Qodrat é um garoto de rua que vende chaveiros e ingressos de cinema no câmbio negro. Detido por essa atividade ilegal, é levado para um orfanato dirigido pelos russos.

Lá ele faz amizades, sonha com o amor e “viaja” na imaginação, inserindo-se em paródias de cenas de musicais indianos nas quais brilha originalmente o mega-astro bollywoodiano Amitabh Bachchan. A vida no orfanato não deixa de ter seus dissabores, que incluem episódios de loucura e morte, além de um menino que impõe o terror sobre os novatos e os mais fracos. Mas a nota predominante é claramente favorável à instituição, retratada como um lugar limpo, relativamente agradável e onde os internos gozam de boa dose de liberdade.

O papel do supervisor, figura paternal, é vivido por Anwar Hashimi, um memorialista dos últimos 40 anos de vida no Afeganistão. Ele foi descoberto pela diretora Shahrbanoo Sadat, que o estimulou a escrever suas memórias e as vem transformando na matéria-prima dos seus filmes. O primeiro foi Wolf and Sheep, de 2016, drama rural sobre comunidades de pastores. Depois de O Orfanato, a dupla pretende prosseguir com mais três filmes inspirados na trajetória de Hashimi, que tem no fantasista Qodrat o seu possível alterego.

Num dos trechos mais efusivos do filme, um grupo de garotos visita Moscou, interage com escolares russos, visita o túmulo de Lênin (recriado em estúdio) e disputa partidas de xadrez. A doutrinação comunista é apresentada de maneira light e até afável, principalmente se comparada com o que vem a seguir no Afeganistão. A chegada dos mujahedin ao poder e a transformação do país em estado islâmico aparece de maneira brutal, que lembra a entrada dos nazistas em Adeus, Meninos, de Louis Malle.

Os confrontos entre partidários da URSS e os grupos rebeldes não ressoa no orfanato, nem entre os personagens. Na única sequência que se refere ao assunto, os meninos se divertem com um tanque de guerra acidentado – o que terá consequências trágicas mais adiante. A ênfase é posta nos dramas individuais e na inocência dos adolescentes.

Rodado no Tajiquistão e na Dinamarca, O Orfanato se ressente de saltos abruptos no roteiro e alguma ingenuidade na conformação de certas cenas. Mas essas insuficiências são amplamente compensadas pela energia que emana do filme e a curiosidade sobre a esdrúxula relação cultural entre afegãos e russos na época. Quanto aos devaneios bollywoodianos de Qodrat, típicos da cinefilia afegã pré-talibãs, são mais um toque de singeleza a angariar nossa simpatia.

Para mais informações sobre o contexto do filme, recomendo a leitura dessa ótima entrevista da diretora Shahrbanoo Sadat a Bruno Carmelo, do site Papo de Cinema.

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