Tiradentes abre com Paula e Arrigo

A 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou ontem (sexta, 22/1) à noite em modo online, gratuito e acessível em qualquer lugar do mundo. Abriu os trabalhos festejando os criadores locais – artesãos, escultores, cantores e folguedistas de Tiradentes – num misto de performance e depoimentos. Após uma fala em off da produtora Raquel Hallak, entraram em cena as duas estrelas da noite: a cineasta homenageada Paula Gaitán, que recebeu o Troféu Barroco, e o músico Arrigo Barnabé.

A live contou também com as participações da ótima apresentadora Érica Vieira, do curador Francis Vogner dos Reis, da atriz Clara Choveaux e dos filhos de Paula, Ava Gaitán e Eryk Rocha, além da tradutora de Libras Tatiana. Como era de se prever com tal composição, a “mesa” foi mais uma extensão da homenagem do que uma análise do percurso da cineasta. Veja aqui.

Em seguida, veio o filme de abertura, o média-metragem Ostinato, de Paula com Arrigo. Em última análise, trata-se de um recital comentado. Entre uma loja de material musical e uma sala com piano, o músico comenta como criou seu sistema de composição e ilustra ao teclado. Arrigo se define como “um músico erudito-popular”, empenhado em criar uma obra sofisticada mas sem abrir mão da comunicabilidade. A composição “Sertanejo lisérgico” exemplifica seu intuito de juntar pontas distantes do espectro musical.

Arrigo é visto também cantando/declamando/atuando junto a um octeto, prática com a qual ele satisfaz sua veia de ator. Já conhece essa faceta quem viu o longa Nervos de Aço, de Maurice Capovilla, em que ele personifica os temas de Lupicínio Rodrigues. Aqui e ali, Paula também capta microperformances silenciosas.

Perto do final, Ostinato ganha uma tensão inesperada quando Arrigo afirma que a arte revolucionária hoje tende à escatologia. Paula pede que ele explique o que quer dizer e ele se detém, encabulado. Ela insiste, ele não consegue articular uma resposta. Ela começa a falar por ele, tentando chegar aonde ele talvez quisesse ter chegado. Quando ela assume o discurso, ele se cala, acuado. Um desconforto evidente se instala. Por ironia, num filme que abre com Arrigo perguntando: “Posso falar?”.

O que essa longa e aflitiva cena estampa é o impasse entre a cineasta habituada ao pensamento analítico e o músico voltado para a experiência mais intuitiva que teórica. Expondo o embaraço de Arrigo e a sua própria desenvoltura, Paula toca as fronteiras da indiscrição e da vaidade.

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