Uma estrada com a cara do Brasil

Série TRANSAMAZÔNICA – UMA ESTRADA PARA O PASSADO na HBO Mundi

No primeiro episódio da série documental Transamazônica – Uma Estrada para o Passado, que estreia na HBO Mundi nesta quinta-feira (11/2), um radialista paraibano define a Transamazônica como uma estrada destinada a “ligar a miséria ao nada”. Minutos depois, aparece Delfim Netto, ministro da Fazenda à época de sua construção, para rechaçar: “ela ligava o desespero à esperança, só que esta fracassou”.

Em seis episódios de uma hora de duração, a série dirigida por Jorge Bodanzky e Fabiano Maciel colhe impressões divergentes sobre o papel daquela obra faraônica que marcou o regime militar.

Bodanzky, um dos cineastas que melhor conhecem a Amazônia e seus problemas, revisita um cenário muitas vezes frequentado por ele, desde que realizou, com Orlando Senna, o seminal Iracema, uma Transa Amazônica, em 1974. Ele é também o narrador esporádico da série. A julgar pelos três primeiros episódios, a que já tive acesso, Transamazônica percorre a estrada à procura de personagens que a utilizam no seu dia a dia ou se estabeleceram em suas imediações. Partindo do km zero, na cidade paraibana de Cabedelo, avança em direção ao Noroeste, às vezes pegando carona em boleias de caminhão. As gravações principais, ao que parece, foram feitas em 2016.

O primeiro episódio focaliza a imigração nordestina e os efeitos da estrada sobre as populações da Paraíba, Ceará, Maranhão e Piauí. Trechos de cinejornais e propagandas de “Brasil grande” do governo militar enaltecem os propósitos da obra (“integrar para não entregar”), tendo como contraponto as imagens de devastação e pobreza resultantes. Seguindo o percurso de um ciclista, a câmera flagra a extraordinária ociosidade de um grande pedaço da estrada no interior do Maranhão, onde você pode tirar uma soneca no leito de terra sem ser importunado por carro durante horas.

Já outros trechos da estrada, ali conhecida apenas como BR 230, ganham fartos elogios populares.  É o caso do poeta de Farias Brito (CE), que aplaude a integração da cidade com o resto do estado, ou de um sacerdote da região, que louva o caminho dos romeiros devotos do Padre Cícero.

Bodanzky vocaliza as críticas mais contundentes não só à Transamazônica, como aos megaprojetos do gênero, que trazem violência e sequelas sociais e ambientais ao interior do país. Ao entrar em Tocantins, ele aponta as “duas pragas” que acometeram o Centro-Oeste: o eucalipto e a monocultura da soja. Mais adiante, desqualifica a usina de Belo Monte como “talvez o maior desastre” já provocado na Amazônia. Nesse caso, a série não procura vozes de contraponto.

A violência é o mote do segundo episódio, que enfoca a Guerrilha do Araguaia e a guerra pela posse da terra. O ex-guerrilheiro e ex-deputado José Genoíno relembra detalhes da luta no Araguaia e explica que a Transamazônica foi a chegada do aparato estatal a uma região que vivia à margem de tudo. Particularmente interessantes são os depoimentos de um agricultor que conviveu com a guerrilha, teve o pai torturado pelo Exército e conta detalhes do massacre sofrido pelos “paulistas” (como os guerrilheiros eram conhecidos pelos camponeses).

No rastro das atividades da esquerda na região vieram os assentamentos e ocupações, como a da icônica Fazenda Landi, no Pará. O afluxo de colonos, trabalhadores e aventureiros ao Norte no rastro da Transamazônica provocou um caos fundiário e a contínua violência por terras no Pará. O massacre de Eldorado do Carajás é mais que uma triste lembrança – é paradigma dos assassinatos contumazes e impunes de lideranças populares e religiosos como a freira Dorothy Stang. Desponta aí um dos grandes personagens da série, Maria Joelma Dutra, viúva de um líder sindical assassinado que assumiu a dianteira da luta, à semelhança de Elizabeth Teixeira, a heroína de Cabra Marcado para Morrer.

Ao entrarmos no terceiro episódio, já estamos familiarizados com a abrangência da série, a perseverante busca de pessoas que encarnem as diversas questões abordadas, assim como a qualidade técnica da realização e a contagiante trilha sonora de Pio Lobato. Não se trata de um trabalho inovador no gênero, mas antes de um devotado e eficaz diagnóstico da Transamazônica entre a megalomania do projeto e o fiasco de seu status de obra inacabada.

O episódio 3, inteiramente ambientado no Pará, passa pela crítica ao “anti-exemplo” de Belo Monte e se concentra nos colonos que vieram do Sul para se instalar nas margens da Transamazônica. Atraídos pela promessa de terra, casa e assistência, muitos se dizem enganados e abandonados pelo governo. Os que resistiram alcançaram certa prosperidade e hoje se identificam com a Amazônia. Outros só encontraram pobreza e terra arrasada pela pecuária e as monoculturas.

Como que repetindo uma cena de Iracema, Bodanzky e Maciel registram a movimentação noturna de caminhões de madeireiros transportando suas cargas ilegais longe dos olhos das autoridades, que fingem dormir em perfeito acordo com a clandestinidade. Na entrada de um município, ainda se lê a placa “Medicilândia”. Herança de um tempo em que Garrastazu Médici cortava fitas de inauguração de um “Brasil novo” que nunca se concretizou.

Um bom complemento para o travelling documental de Transamazônica – Uma Estrada para o Passado é a série Arrabalde de reportagens em profundidade de João Moreira Salles na revista piauí (aqui, aqui e aqui).

https://fb.watch/3yDlMThpKk/

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