A comédia como preparação da morte

AS MORTES DE DICK JOHNSON na Netflix

Uma das marcas do documentário contemporâneo é a entronização de familiares do documentarista como personagens. Pais, mães e avós são as estrelas mais frequentes, em tratamentos que variam entre o interesse histórico e as peculiaridades humanas. Um exemplar curioso dessa vertente é As Mortes de Dick Johnson, que por um excesso de valorização entrou na shortlist do Oscar da categoria.

A experiente cinegrafista Kirsten Johnson – cujo trabalho de muitos anos foi reunido no doc Cameraperson (2016) – transformou em filme o seu temor pela perda do pai, Richard “Dick” Johnson, que começava a perder a memória aos 84 anos. Valendo-se do bom humor do velho psiquiatra aposentado, Kirsten propôs encenar a sua morte em diferentes circunstâncias, como uma forma divertida de se preparar para o inevitável. Assim, mediante o uso de dublês e de uma série de trucagens simples, vemos Dick “morrer” em acidentes de rua e infarto fatal.

A iniciativa é ousada e original, sem dúvida. E avança para o terreno da fantasia nas cenas de estúdio em que Dick sobe aos céus entre lantejoulas e nuvens de pipoca para reencontrar, entre outros espíritos dançantes, sua mulher, falecida sete anos antes e já acometida de Alzheimer. Em outro momento, ele é visto também num inferno evocativo do expressionismo alemão. Tratando-se de uma família de religião adventista, que aposta na futura ressureição de todos os mortos, a brincadeira ganha foros de ironia.

À medida que piora o estado de saúde mental do pai, entre 2017 e 2019, Kirsten vai dando ao filme uma coloração mais e mais depressiva. Afinal, apesar de todo o fairplay, este é um filme sobre a morte. O suicídio e a eutanásia entram nas conversas, num misto de anedota e gravidade. Dick é levado de Seattle para morar com a filha em Nova York, o que lhe rouba um pouco da vitalidade demonstrada no início do filme.

O roteiro tem algumas “barrigas” e o humor fúnebre perde fôlego a meio caminho. A “pegadinha” final, envolvendo familiares e amigos, me pareceu tão excêntrica e mórbida que só um contexto cultural e religioso específico pode naturalizar.

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