É Tudo Verdade: Fuga

Em exibição gratuita: Plataforma Looke – 08/04 às 21h durante 24 horas

Animadocs não têm tido muito espaço no É Tudo Verdade, e esta é a primeira vez que um filme do gênero abre o festival. Uma escolha surpreendente, já que, ao contrário das anteriores, Fuga (Flee) não é um filme “pra cima”, nem guarda relação forte com o público brasileiro. Contudo, é um grande trabalho de animação documental e mais um testemunho potente sobre o drama dos refugiados.

Quando tomamos contato pela primeira vez com Amin (nome fictício do personagem real), ele está sendo entrevistado pelo diretor Jonas Poher Rasmussen. Vemos os dois na cena, e aos poucos vamos percebendo que Amin está deitado, como num divã de psicanalista. A entrevista tem esse aspecto de consulta psicanalítica, em que o filme vai “pintando” as memórias de Amin.

A infância de garoto gay em Cabul (onde, segundo ele, nem existia uma palavra para “gay”) é interrompida pela chegada do horror talibã. A partir daí, o relato de Amin sobre sua família começa a não bater com a realidade. Ainda menino, ele foge numa dramática travessia pelas mãos de contrabandistas de seres humanos. Depois de muitas reviravoltas e sofrimentos, chega sozinho à Dinamarca, onde vive até hoje como um intelectual renomado e casado com um dinamarquês.

Diante da câmera do amigo cineasta, ele decide revelar o grande segredo que lhe permitiu sobreviver e não ser mandado de volta ao Afeganistão, ainda que ao custo de muita culpa e sentindo-se devedor de muita gente. O drama íntimo de Amin dá o tom de suas conversas com Rasmussen, cheias de pausas e oscilações de ânimo. O filme os mostra também fora do que seria a filmagem, em diálogos sem câmera. Fuga seria, afinal, um animadoc sobre a relação entre diretor e personagem.

Mas o que se impõe com mais força é o thriller de fuga anunciado pelo título. Somos arrastados sem fôlego pela descrição muito viva dos horrores das jornadas a pé no gelo ou em contêineres e porões de barcos, dos contatos com a corrupta polícia russa pós-1989 e das tensões vividas entre Cabul, Moscou, Estônia e a Escandinávia.

A animação, embora nem sempre flua suave nos movimentos, é extremamente sugestiva. O relativo realismo dominante é rompido aqui e ali por espasmos de expressionismo para dar conta de certos clímaxes dramátícos. Cenas documentais contextualizam fatos históricos e ilustram alguns trechos do relato de Amin.

Fuga faz uma espécie de balanço das técnicas que vêm sendo utilizadas nos animadocs mais factuais (porque há também os animadocs fantasiosos). Junta dois temas sensíveis: as condições de refugiado e de gay no contexto homofóbico da Ásia Central. Tudo isso lhe valeu o prêmio World Cinema – Documentary no Festival de Sundance e o de melhor documentário nórdico em Gotemburgo (Suécia). Um dos produtores executivos é o ator, rapper e ativista Riz Ahmed, que concorre ao Oscar como ator principal de O Som do Silêncio

>> Confira minhas resenhas dos seguintes filmes, que passam a partir de 8 de maio na plataforma SPCine Play:

 

 

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