É Tudo Verdade: Golpe de Ouro

Exibições gratuitas: Plataforma SPCine Play, 08 a 22/04

Dois episódios emolduram o assunto central de Golpe de Ouro. Na abertura, o filme evoca a passagem bíblica do bezerro de ouro, quando o povo de Israel doou seus bens para a confecção de um falso ídolo. No epílogo, vemos as manifestações populares de extrema-direita que pediam o impeachment de Dilma Rousseff e a intervenção militar contra “o comunismo”. Entre uma coisa e outra, Chaim Litevski reconta a campanha “Ouro para o Bem do Brasil”, levada a cabo pelos Diários Associados logo após o golpe de 1964.

Mobilizando a elite brasileira e a opinião pública na coleta de recursos para supostamente pagar a dívida externa e recolocar a economia nos trilhos, Assis Chateaubriand na verdade estava se aliando aos militares na consolidação do golpe e no combate à chamada ameaça vermelha. A Guerra Fria batia na porta do Brasil com o apoio dos EUA à derrubada de Jango. Todas as forças reacionárias locais se juntaram nesse esforço – TFP (Tradição, Família e Propriedade), Lions e Rotary Clubs, IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), classe média, industriais.

Grandes empresários faziam doações simbólicas, enquanto a gente simples se desfazia de suas poucas joias – especialmente alianças – em prol de uma causa apresentada como patriótica. O documentário ouve vários doadores das classes populares, que enfrentaram filas quilométricas para depositar sua correntinha de ouro nos cofres da campanha, recebendo em troca um anel comemorativo de metal. Já um provecto dirigente da TFP admite, hipocritamente, que não doou nada (“Revirei os bolsos e não tinha nenhum ouro para dar”).

Chaim Litevski é autor de um dos poucos e melhores documentários sobre a classe empresarial que apoiou a ditadura civil-militar, Cidadão Boilesen. Golpe de Ouro segue essa linha, agora enfocando a colaboração da mídia corporativa, sempre presente quando se trata de atacar a democracia sob o pretexto de defendê-la. No epílogo atual do filme, bem caberia destacar o papel da Globo, da Folha de S. Paulo e do Estadão no inferno político que vivemos hoje.

As imagens de arquivo da campanha são impressionantes pelo afluxo de gente nos postos de arrecadação e pela satisfação com que as pessoas se deixavam enganar. Joias, relógios, cheques, dinheiro vivo e até um violino Stradivarius e uma enxada de ouro em tamanho natural foram recolhidos aos cofres. O ator Lima Duarte foi um dos que colaboraram na cruzada com fervor patriótico.  Mulheres e crianças se expunham às câmeras da Agência Nacional como se estivessem numa parada cívica. Uma historiadora entrevistada por Litevski chama atenção para o papel das mulheres no fomento ao golpe e à campanha.

Apesar do interesse das imagens da época, é forçoso reconhecer que o filme abusa um pouco de sua utilização, tornando-se por vezes redundante e ancorado numa trilha musical pouco inspirada. O roteiro custa um bocado a entrar na parte crítica, que, afinal, é o que mais se espera do filme. Além de arrecadações falsas em alguns lugares, questiona-se principalmente a destinação dada aos bens coletados, totalizando aproximadamente 3,8 bilhões de cruzeiros à época. A busca de notícias e documentos sobre os rumos do tesouro dá conta de um bate-cabeça sem fim entre bancos, instituições, museus e até a associação de ex-combatentes da FEB. Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda e agora uma espécie de Caetano Veloso dos documentários históricos, desdenha da iniciativa: “Aquilo foi coisa da iniciativa privada. Não resolveu nada, só trouxe um problema para o governo”. Vinte por cento do arrecadado foi para o bolso de Chateaubriand, conforme acertado previamente.

Ao longos dos anos 1970 e início dos 80, ainda se discutia o que fazer com o patrimônio amealhado junto à boa fé do povo e ao oportunismo dos lambe-botas.  Pelas últimas consultas efetuadas para o filme, o rastro da maior parte da fortuna se perdeu. Mas o populismo de direita não perdeu a chance de se renovar de 2016 para cá.

Um comentário sobre “É Tudo Verdade: Golpe de Ouro

  1. No ano de 1963, quando eu tinha dezenove anos e trabalhava no Banco Nacional do Paraná e Santa Catarina, o “NOSSOBANCO”, em Londrina (Pr), onde era sua sede, tínhamos uma conta-corrente com o nome de “Ouro Para o Bem do Brasil”, onde ficavam contabilizados, em moeda corrente da época, o “Cruzeiro”, se bem me lembro, os valores apurados por essas doações, naquela cidade, ingenuamente vistos por nós como a coisa mais “normal” do mundo.
    Nelson Bravo – Juiz de Fora (MG)

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