Tempo de revanche

BELA VINGANÇA

Filme-sensação da última temporada americana, Bela Vingança (Promising Young Woman) foi recebido como uma manifestação pontiaguda e hiperbólica do movimento Me Too. Na minha apreciação, está mais próximo de um slasher filmado com orçamento de luxo.

Sete anos antes da história começar, Nina Fisher, a melhor amiga de Cassie (Carey Mullingan) foi currada bêbada por um colega diante das gargalhadas dos demais. Depois disso, abandonou a faculdade e veio a morrer não se sabe como.

Cassie também desistiu da carreira e trabalha num café. Transformou-se num anjo vingador. Vai a bares, finge-se de terivelmente bêbada e se deixa levar por algum aproveitador antes de sair do “transe” e deixar o cara confuso. Com poderes quase super-humanos, ela intimida a todos. Homens e mulheres se desmontam frente a sua firme determinação em cenas tão difíceis de engolir quanto pedras.

A moça age como uma sociopata no seu intento de revanche. Quando um chofer de entregas a ofende no trânsito, ela sai do carro e arrebenta os vidros da caminhonete dele ao som de Wagner. Mas ela tem um objetivo supremo, que vai atingir com requintes de disfarce, sadomasoquismo e cálculo de gênio.

A diretora estreante Emerald Fennell é uma atriz conhecida pelo papel de Camila Parker-Bowles na série The Crown. Em Bela Vingança ela aparece rapidamente como uma influenciadora digital ensinando o uso de um batom matador. Autora também do roteiro original, Emerald quis fazer um thriller de efeito para o novo feminismo que avassalou Hollywood. Conseguiu causar certo frisson, mas à custa de verossimilhança e de um mínimo de sutileza. As estratégias de Cassie parecem saídas de um pulp fiction barato, inclusive nas duas reviravoltas do último ato.

Carey Mullingan se disfarça de vários tipos de mulher e tem momentos de má atuação, como no choro diante do vídeo. Mesmo assim, convenceu os votantes do Oscar, que lhe indicaram como melhor atriz. A sanha do Me Too atingiu até um crítico da revista Variety, que ousou escrever que Carey, apesar de boa atriz, não tinha físico adequado para o papel. Foi massacrado e teve que pedir desculpas.

Bela Vingança concorre também a melhor filme, direção, roteiro original e – o único merecido – montagem. Ainda não está disponível em plataformas de streaming brasileiras.

Um comentário sobre “Tempo de revanche

  1. Pingback: Todas as minhas resenhas do Oscar | carmattos

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