O amor no pós-apocalipse

ATLANTIS no streaming

Como contar uma história de amor no pós-apocalipse? No fundo, é isso o que faz Atlantis, o filme que a Ucrânia escolheu para representá-la no último Oscar depois de ter vencido a Mostra Horizonte do Festival de Veneza. Não é o que parece durante grande parte do longa, que começa com a cena brutal de um homem sendo enterrado vivo e prossegue com o panorama distópico de uma terra física e humanamente devastada.

Estamos em 2025, um ano depois de supostamente terminada a guerra civil que ainda corre no Leste da Ucrânia. A cidade industrial de Mariupol e seus arredores sofreu (de verdade) uma catástrofe bélica e ambiental. Grandes usinas siderúrgicas foram fechadas, o terreno está coalhado de minas e os mananciais de água foram contaminados pelas minas inundadas. No filme não se vê nenhum cidadão comum, mas só ex-soldados, desmontadores de minas e voluntários da organização (real) Black Tulip, que se dedica a procurar, exumar e identificar combatentes mortos e entrerrados em valas comuns desde a I Guerra Mundial. Nos últimos anos, a Black Tulip passou a buscar as centenas de soldados desaparecidos durante a guerra na Ucrânia.

O personagem central é o ex-soldado Serhiy (Andriy Rymaruk), traumatizado desde antes do conflito. Seu amigo se suicida na caldeira de uma usina, numa das várias alusões ao fogo e, metaforicamente, ao inferno em que se tornou a região do Donbass. Com o fechamento de mais uma fábrica, Serhiy emprega-se como motorista de um carro-pipa e acaba conhecendo Katya (Liudmyla Bileka), arqueóloga ligada à Black Tulip. “Em vez de escavações antigas, eu trabalho com material recente”, diz ela mais ou menos assim, referindo-se aos cadáveres mumificados e esqueletizados.

O romance progride entre trajetos por estradas rudimentares e sessões de exumação e inventário de corpos em estado avançado de decomposição. Culmina com uma das cenas de sexo mais insólitas da história do cinema. Aliás, Atlantis inclui também uma cena de banho ao ar livre das mais inusitadas.

Impressiona a forma como o diretor Valentyn Vasyanovych (responsável também por produção, roteiro, fotografia e montagem do filme) concilia a atmosfera pesada, cinzenta e pós-apocalíptica com o tênue fio de esperança representado pela relação entre Serhiy e Katya. Um grande rigor formal comanda a narrativa, composta de planos-sequência longos, sendo 21 completamente fixos, três em veículos em movimento e apenas uma tomada móvel, quando Serhiy visita o apartamento bombardeado onde antes vivia com sua família. Os planos fixos contêm ações em várias camadas e uma tensão interna admirável. Eis um cineasta que parece criar tudo a partir não de uma escrita, mas de uma apropriação dos espaços cênicos. Por isso é aconselhável ver Atlantis na maior tela possível.

Por vezes o realismo árduo desse drama chega muito próximo do documentário, seja no trabalho dos sapadores e exumadores, seja na caracterização do ator principal, ele próprio um veterano da guerra civil. O abatimento e as atitudes masoquistas de Serhiy, assim como sua compulsão por tiros, são traços verídicos do rapaz e conferem uma grande autenticidade ao papel.

O titulo do filme faz alusão à Atlântida, o continente lendário citado por Platão. A ocupação russa do leste da Ucrânia transformou a região numa terra perdida, um quase-deserto inabitável. Atlantis mergulha fundo nas ruínas da catástrofe, na decepção com o resultado pífio de toda uma guerra, para dali colher uma semente de afeto.

Cineasta ucraniano formado na Polônia, Valentyn Vasyanovych deixa uma marca forte com seu quarto longa-metragem. O estilo e a ambientação de Atlantis já suscitaram menções a Tarkovsky e a Sokurov. Mas é a Dziga Vertov que ele recorre, não sem ironia, com cenas de Entusiasmo – Sinfonia do Donbass na sequência mais grandiosa do filme: o louvor ao trabalho soviético enquanto mais uma usina ucraniana encerra suas atividades.

>> Atlantis está nas plataformas Mubi e Reserva Imovision

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