Festival Estação: Rosa, João, Ruivaldo

Destaques entre as pré-estreias da segunda semana do Festival Estação Virtual, a matéria-prima de Guimarães Rosa, lembranças do pai João Cabral e a luta do fazendeiro Ruivaldo. Link dos filmes no final de cada texto.

No rastro do verbo de Rosa

Suzana Macedo abalou-se pro sertão mineiro atrás de Rosa, o Guimarães. Topou com Seres, Coisas, Lugares, que logo sacramentou como título do seu média-metragem. No subtítulo adotou “Notas avulsas de uma viagem ao sertão”. Pra mor de sermos mais corretozinhos, digamos que ela foi à região do Morro da Garça, que Rosa tomou como epicentro do seu conto O Recado do Morro: “solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide”.

Nonada de procurar o escritor em si. Suzana partiu atrás do que o inspirava naquele ermo de distâncias. Gente como Seu Tonico, que desfiou pra ela a história de sua desilusão amorosa com a menina boa e nunca mais abriu a porteira do coração. Ou Seu Nonô, que namorou 153, diz ele, e era disputado pelas moças, diz ele.

Seu Tonico, por bem dizer, conta que viu Guimarães Rosa tomando notas em sua caderneta por riba da perna, mas aí já é outra história.

Suzana ouve, a gente ouve, e isso é uma joia rara e bruta. Para além de ouvir, ela às vezes comenta visualmente o que é dito, com desenhos de uma graça matreira, singela como o quê. Seu Nonato garante: “Quase toda árvore é um remédio” e  desfia as maravilhas das folhas e das raízes. As plantas, os bichos, os sinais do tempo, tudo como num inventário desinventado que vem da sabedoria sertaneja mesmo, sem tirar nem pôr.

E também o capeta encontrado a cavalo, a luz que corre misteriosa entre os morros, os causos de assombração em que acreditam desacreditando, assim assim. “O mundo acaba pra aqueles que morreu”, põe fé um deles.

Acabou não. Tem ainda Seu Mauro, o maestro que canta que viu o morto gemer. E mais Washington, o artista matraqueiro que faz ligação direta com Deus por cima de sua cabeça. Ele mostra seu museuzinho de apetrechos da vida: “Tudo significa, as coisas”. Parece frase roseana – e vai que é, em retrospecto. Foi dessas vozes que Rosa espremeu seus escritos.

Por cima e no meio de tudo, Suzana semeou fotos, imagens e sons assombrantes de cavernas, lonjuras e miudezas das Gerais. O Grivo sonhou a trilha-paisagem que nos transporta no lombo dos sons. Um poema, e pronto. Complemento justo para O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho.

Belo como uma palavra.

Veja o filme neste link.

O poeta como pai

O conhecimento e a paixão de Bebeto Abrantes por João Cabral já o levou a moldar o inventivo Recife-Sevilha – João Cabral de Melo Neto em 2003 (veja o filme aqui). Mas não saciou o desejo do documentarista de ampliar a percepção do público a respeito do autor de O Cão sem Plumas. Ele está preparando um novo longa-metragem com materiais inéditos filmados em vários países e trechos não utilizados da grande entrevista que fez com João Cabral.

Enquanto isso, apresenta aqui um recorte de memórias de Inez Cabral sobre o pai, sobrepostas em imagens de filmes domésticos da família, rodados em diversas partes das Europa pela primeira esposa de João Cabral, Stella Maria. João por Inez é o que o título diz: traços para um perfil do poeta e diplomata como pai. O homem “ranheta” que desdenhava de grandes intimidades e nivelava as crianças por cima na hora de ensinar. Alguém que mostrava emoção sem falar de emoção.

Inez procura desfazer o epíteto de “poeta sem alma”, destacando a dimensão autobiográfica embutida em boa parte de sua obra. As imagens de Super 8 revelam o lado descontraído de João Cabral, em períodos de folga ou férias, quando ele se transmutava no paizão que faltava na rotina do trabalho da escrita e da diplomacia. “Tive a sorte de ser filha dele”, diz Inez. E nós, a sorte de ganhar essa visão relativamente íntima de um poeta mais conhecido pelo rigor e a justeza.

Veja o filme neste link.

A batalha de Ruivaldo

Ruivaldo, o Homem que Salvou a Terra leva o cineasta-expedicionário Jorge Bodanzky para o Pantanal mato-grossense. Vai acompanhado do fotógrafo João Farkas, filho de Thomas e irmão de Pedro, que nos últimos tempos tem apontado suas finas lentes para a região. As fotos de João e as filmagens de Jorge, acrescidas de muitas tomadas de drones, desvendam a imensa paisagem pantaneira. A beleza das imagens não disfarça, porém, a devastação que vem ocorrendo na área.

O documentário de média metragem se concentra, primeiro, na região da Bacia do Taquari, rio que vem sendo assoreado e causando a destruição de fazendas, da diversidade ambiental e dos meios de vida da população. Numa segunda instância, focaliza o fazendeiro Ruivaldo Nery de Andrade, que nada contra a corrente e batalha para salvar sua fazenda. Mais do que isso, como bom filho da terra, ele diz querer “o Pantanal de volta”.

A invasão do agronegócio, associada ao descaso dos governos, vem transformando os rios do Mato Grosso do Sul em estradas de lama e dando margem a inundações extremamente destrutivas, provocando um dos maiores desastres ecológicos do país. Ao destacar o empenho de Ruivaldo, o filme procura deixar um alerta sobre um dos maiores desastres ecológicos do país e sobre a necessidade de se conciliar produção e preservação. Antes que o Pantanal se converta num enorme pântano, ou seja, numa extensão morta.

Veja o filme neste link.

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