Première Brasil: Uma mulher, um herói e cinco recuperados

Meus comentários sobre DESTERRO, CHICO REI ENTRE NÓS e LUZ ACESA, da programação da Première Brasil 2020. Os filmes estão em cartaz na plataforma Innsaei.

Uma mulher e o resto do mundo

O bloco de ficções desta Première Brasil traz filmes insólitos e mesmo inesperados ante certas tradições do cinema brasileiro. Assim são o irresistível Meu Nome é Bagdá, de Caru Alves de Souza, o cativante King Kong en Asunción e o desconexo Casa de Antiguidades, esses dois já comentados aqui. Desterro, primeiro longa ficcional de Maria Clara Escobar (Meus Dias com Ele) segue o mesmo caminho.

São todos filmes em que os tênues fios narrativos se prestam mais que nada a amarrar caprichos de estilo, metáforas temáticas e pulsões cinematográficas autônomas. Independente de serem bem sucedidos ou não no fim das contas, são todos irredutíveis a sinopses ou a impressões fechadas. Desterro, por exemplo, não pode ser resumido à história de um casal em crise.

Laura (Carla Kinzo) e Israel (Otto Jr.) conversam sem olhar um para o outro em sucessivos cafés da manhã. Eles têm um filho que tratam com frieza; ele tem a cara fechada; ela tem uma dor de estômago. O mal estar do casal parece se espalhar para o resto do mundo. No metrô, por exemplo, onde Sara Antunes e Grace Passô se reencontram depois de um interlúdio afetivo. Ou numa festinha de aniversário sonorizada com a narração radiofônica de um crime passional.

No terceiro módulo narrativo, que vem antes do segundo, Israel está enfrentando a burocracia para transladar o corpo de Laura, que morreu durante uma viagem sozinha à Argentina. No segundo bloco, enfim, vamos saber as circunstâncias dessa morte. Uma viagem de ônibus reúne Laura, um homem desconhecido (Rômulo Braga) e várias mulheres que entabulam diálogos ou se dirigem à câmera, sempre a propósito da condição feminina e do amor na contemporaneidade. Georgette Fadel, Barbara Colen e Izabél Zuaa fazem monólogos autoficcionais, com Barbara voltando à cena para dizer um poema agudo de Angélica Freitas, do livro Um Útero é do Tamanho de um Punho.

Maria Clara contou à revista Continente: “Passei sete anos para fazer Desterro, e a primeira imagem que me veio é justamente a que fecha tudo: um homem sentado num banco, um corpo enrolado em um saco, uma casa a pegar fogo atrás. A partir daí, de forma inconsciente, até, o roteiro foi tomando corpo, entendendo que o próprio processo fazia parte dele”.

Esse método de criação responde pela maneira ao mesmo tempo linear e labiríntica com que a diretora-roteirista carrega seus personagens e suas emanações para um plano mais geral. O tom é quase sempre depressivo e as posturas hieráticas, exceto em alguns poucos diálogos coadjuvantes e quando o desfecho se aproxima, no momento em que Laura tem uma epifania dançante com seu companheiro de viagem.

Nota-se a busca constante de um estilo pouco convencional nos enquadramentos, nos closes de partes dos corpos, na frequente quebra de eixos da encenação e numa montagem que explode as cenas de rotina doméstica em jump cuts. Tudo parece narrado pelas bordas, evitando escrupulosamente o que pudesse parecer banal. A influência de Chantal Akerman é algo que eu me arriscaria a intuir. Desterro, a meu ver, é um filme bonito, difícil e mais ambicioso do que é capaz de dar conta.

Letreiro bacana exibido na abertura do filme:



Mito de verdade é Chico Rei

Chico Rei é um personagem da história oral mineira cuja existência real nunca foi comprovada. Em meados dos anos 1980, Walter Lima Jr. fez um belo filme sobre esse herói cuja astúcia maior estava em saber multiplicar-se em seus companheiros e agir politicamente na hora adequada. Os relatos dão conta de que Galanga, aqui renomeado Francisco, era um rei do Congo trazido como escravo para as minas de ouro. Ele escondia pepitas nos cabelos e em orifícios do corpo, assim podendo comprar sua liberdade e a de muitos companheiros. Com isso teria restaurado sua condição de nobre – Chico Rei – e criado o folguedo conhecido como Congada.

Cenas do filme de Walter bem poderiam ter ilustrado o documentário Chico Rei Entre Nós, de Joyce Prado, dando maior concretude cinematográfica ao personagem. Sem isso, e à falta de qualquer registro histórico, o filme opta pela simples reverberação do mito. E o faz de maneira muito convencional e um bocado reiterativa.

Entre relatos de guias turísticos e depoimentos e conversas de moradores de Ouro Preto e de São Paulo (cujo bairro da Liberdade, antes de ser “japonês”, era um quilombo afro-brasileiro), discute-se a veracidade do personagem e dos relatos sobre ele, assim como as ressonâncias da escravidão na religiosidade e na sociedade brasileira de hoje. “Cada líder de comunidade é um Chico Rei”, diz alguém.

Certas reflexões e informações ganham relevância maior. Os escravos não eram meros burros de carga, mas tinham talentos de engenharia e arte que ajudaram a construir as riquezas expropriadas pela colônia portuguesa. As igrejas e suas irmandades eram segmentadas por raça e classe, como explica com verve a historiadora e folclorista Deolinda Alice dos Santos. Chico rei dá nome a uma Ocupação no terreno da antiga Febem de Ouro Preto, que ainda hoje resiste.

Falta, porém, uma roteirização mais coesa e uma montagem que eliminasse redundâncias e obviedades sobre o assunto. Voltar a Chico Rei, hoje em dia, merecia uma abordagem mais aguda dos ecos desse mito perante a nossa elite do atraso ancorada na escravidão.



De volta do inferno

Um documentário pode despertar interesse por várias razões: pelo tema, pela forma como este é tratado, pela invenção de uma linguagem ou uso de um dispositivo… Ou simplesmente pelo carisma de seus personagens. Este último é o caso de Luz Acesa, de Guilherme Coelho (Fala Tu, PQD, Fernando Lemos Atrás da Imagem).

Guilherme reúne no filme cinco cariocas que se libertaram do uso abusivo de bebida e drogas em depoimentos muito francos e descontraídos. Nada de realmente novo, como se vê, mas apresentado de maneira inspiradora, especialmente para quem ainda seja escravo das substâncias.

O artista plástico Rogério parou de repente, num estalo de consciência. Ricardo, dono de restaurante, rendeu-se à evidência de que precisava de ajuda especializada. José Ricardo, morador de uma comunidade, deu-se conta do mal que vinha causando a seus pais. Fernanda (ao que parece, uma atleta) precisou ser internada pela família numa clínica para que começasse sua recuperação. Zé Henrique, o mais idoso, não chega a se projetar como personagem.

Em falas confessionais, estimuladas pelo cineasta fora de quadro, eles e ela relatam o inferno em que viviam quando estavam na “ativa” e a felicidade de estarem agora saudáveis e senhores de suas vidas. Cada um aparece também junto a seus familiares, comentando a repercussão de suas trajetórias rumo à libertação.

Mais que uma investigação sobre o vício, Luz Acesa é a exposição de histórias exemplares. Um filme tão simples e terapêutico quanto um copo d’água na hora certa.

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