Soja neon

VENTO SECO no streaming

Se fossemos resumir Vento Seco a sua trama essencial, diríamos que é um triângulo amoroso gay numa cidade do interior de Goiás. Mas o que Daniel Nolasco obtém com esse seu primeiro longa de ficção é bem mais que isso. O que primeiro salta aos olhos é a construção de uma estética queer tanto na dinâmica dos planos centrados na sexualidade, quanto no uso de uma visualidade altamente sugestiva, tributária de Jean Genet, Kenneth Anger, Fassbinder, João Pedro Rodrigues e outras referências que não conheço mas Nolasco não esconde (Alain Guiraudie, Wakefield Poole e o ator pornô Al Parker).

As cores do arco-íris LGBT predominam na cenografia de Carol Breviglierie e na palheta de luzes da esplêndida fotografia de Larry Machado. Aqui e ali, a imagem alaranjada sugere a secura do lugar. O personagem central, Sandro (Leandro Faria Lelo), é dado a devaneios e sonhos eróticos tingidos por tons fosforescentes, nos quais a realidade cede lugar às fantasias fetichistas. Roupas de couro, motocicletas e revólveres exercem sobre ele um fascínio irresistível, prontamente respondido com a língua, as mãos e todo o corpo.

Sandro é um cara tímido e retraído, que mais observa do que participa das atividades do seu entorno. Mantém encontros furtivos com o colega de trabalho Ricardo (Allan Jacinto Santana) e uma amizade próxima com a travesti sindicalista Paula (Renata Carvalho) e o simplório operário Cezar Migliorin (!) (Leo Moreira Sá). Esse relativo equilíbrio vai se quebrar quando chega à cidade o gostosão Maicon (Rafael Teóphilo), a cujos dotes de sedução ninguém parece escapar.

Todos trabalham numa fábrica de fertilizantes, o que serve à criação de curiosas aproximações conceituais. Imagens industriais poderosas de grandes silos de grãos dialogam com o físico marombado da rapaziada, a sofreguidão dos atos sexuais (alguns bastante explícitos) e a fartura de banhos de chuveiro. No pano de fundo, a cultura sertaneja do Centro-Oeste, com as feiras do agronegócio, as festas banhadas em neon e a onipresença do rádio. Esse contexto, aliás, já tinha sido explorado por Nolasco, nascido em Catalão (GO), no documentário Paulistas (leia aqui).

Um subtexto social se insinua quanto aos frequentes acidentes ocorridos na fábrica e as reivindicações de segurança dos operários. Da mesma forma, a LGBTfobia reinante na região é referida de maneira direta ao caso de um professor gay assassinado. Mas nada disso se impõe mais que a sensualidade crua dos corpos, a ousadia cênica das alucinações de Sandro e um clima às vezes próximo do filme noir. É isso que faz desse filme um objeto artístico flamejante na aridez atmosférica e espiritual do planalto goiano.

>> Vento Seco está na plataforma Sala Maniva.

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