Vida e morte em três movimentos

Chega ao streaming a trilogia que deu início à carreira do diretor inglês Terence Davies. Publico aqui mais um trecho do meu ensaio Solidão em Liverpool, escrito em 1995.

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Children (1976) é o primeiro de uma trilogia de médias-metragens realizada por Terence Davies em preto e branco num espaço de dez anos. Os três filmes costumam ser exibidos conjuntamente, como se fossem um longa, e narram episódios da vida de um homossexual, Tucker, da infância à morte. Foi uma experiência de cunho amador, filmada com o apoio da BBC e do British Film Institute.

Tucker é um garoto solitário e calado, que apanha dos colegas e dos professores numa escola repressiva de Liverpool. No banheiro do colégio, ele se distrai vendo o banho dos colegas seminus. Em casa, testemunha a depressão constante da mãe e a doença do pai. O único momento em que o vemos sorrir é quando sai o enterro do pai, verdadeiro divisor de águas na dramaturgia autobiográfica de Davies.

O segundo média da trilogia é Madonna and Child (1980), filmado quando Davies já frequentava a National Film School. Aqui a atmosfera ganha mais gravidade e fica ainda mais cinzenta. Tucker agora é um burocrata taciturno de meia idade que mora com a mãe, folheia revistas de luta livre e sai pé ante pé à noite para aventurar-se no submundo gay. Barrado num pub, apela aos banheiros públicos. Torturado pela culpa, confessa-se na igreja, pune-se com tatuagens e sonha com a própria morte numa espécie de Juízo Final particular.

A trilogia conclui-se com Death and Transfiguration (1983), uma espécie de amálgama dos dois filmes anteriores. Tucker aparece agora em três estágios: criança, adulto e velho agonizante numa cama de hospital. Vemos a morte de sua mãe, a chuva ensopando Liverpool, um coquetel de angústias que só se redime através das canções que já aí pontuam a narrativa e se tornariam uma das marcas registradas do cineasta.

Nos anos 1990, a chamada Trilogia Terence Davies era vez por outra exibida no Brasil graças à colaboração do British Council. Em Londres, estreou para pulgas durante duas semanas. No Festival de Nova York, foi perseguida por uma liga de puritanos sob a pecha de obscenidade. Trata-se, contudo, de elemento fundamental para se compreender o universo do cineasta, o seu projeto de relatar uma vida marcada pelo isolamento, a autopunição, a violência contida (esta sim, tipicamente inglesa), a homossexualidade mal resolvida etc.

Aprendemos com a trilogia o papel terrível do pai na não construção, por Davies, de uma imagem masculina e na sua tendência a refugiar-se no mundo feminino (a mãe, tias, irmãs). Isso vai ecoar profundamente no longa Vozes Distantes (também disponível na mesma plataforma). Verificamos a natureza de sua relação com a mãe, não propriamente edipiana, mas de profunda identificação no sofrimento. Este, por sinal, é tanto imposto por condições externas (adversidades climáticas, violência familiar e escolar, interdições sociais) quanto auto-imposto como punição, tortura pela constatação de uma diferença.

Alinham-se já aí os três espaços míticos da vida e da obra de Terence Davies – a família, a escola e a igreja –, aos  quais se juntará um quarto, o cinema. Esses quatro núcleos serão admiravelmente conectados em O Fim de um Longo Dia, num belíssimo travelling aéreo que, ao som de Tammy na voz de Debbie Reynolds, funde a entrada da casa, uma sala de cinema, a nave de uma igreja e uma sala de aula, evidenciando o caráter de ritual coletivo que unifica o cinema, a escola e a missa. A condensação de tempos (idades) e espaços através de fusões indica desde cedo uma escolha formal característica do cineasta. Suas fusões, muitas vezes localizadas em quadrantes específicos da tela, elaboradas pictoricamente num ritmo cerimonioso, deixam de ser mero recurso de pontuação narrativa para enfatizar que a ordenação de cenas não atende a critérios cronológicos, mas afetivos, poéticos, ritualísticos.

Também o som se apresenta, na trilogia de médias, como um componente autônomo do filme, importante e determinante em si. Há uma orquestração incisiva de cantos, arquejos, passos etc, que se soma às imagens para configurar atmosferas densas, asfixiantes ou evocativas. A edição sonora privilegia ora as contaminações entre sequencias, ora o corte abrupto, impactante.

>> A Trilogia Terence Davies está na plataforma Supo Mungam Plus.

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