Metáfora de uma Rússia entorpecida

JUMPMAN no streaming

Ao que parece, essa realidade existe, ao menos na Rússia de Vladimir Putin: homens se deixam atropelar – na verdade, saltam sobre os capôs de carros em movimento – para, em conluio com a polícia e juristas corruptos, extorquirem dinheiro de motoristas ricos. O protagonista de Jumpman (Podbrosy, literalmente, “saltador”) é um garoto de apenas 16 anos. Denis (Denis Vlasenko) sofre de analgesia congênita, ou seja, é imune à dor física. Seria o caso, então, de dizer que ele não sofre. Com isso, pode saltar sobre os carros e se ferir à vontade.

Nosso primeiro contato com Denis é quando ele, ainda bebê, é deixado pela mãe na caixa coletora de um orfanato (sim, isso também parece existir na Rússia de Putin). Dezesseis anos depois, a mãe (Anna Slyu), aparece para resgatá-lo. Melhor deixar para o espectador descobrir as condições em que ele sai do orfanato. O súbito interesse maternal logo se transformará numa estranha e dúbia relação: um misto de sensualidade quase incestuosa e a exploração inclemente dos “superpoderes” do filho.

Denis passa a se atirar contra os carros, sendo logo socorrido por um policial e uma médica cooptados pela máfia das extorsões. Se o motorista aceitar um polpudo acordo financeiro, o caso se encerra por ali. Caso contrário, irá a um tribunal dominado por advogados e juízes que integram a mesma rede de corrupção.

Nem tudo soa plausível nesse thriller contundente. É difícil acreditar que os repetidos processos envolvendo os “acidentes” de Denis não despertem nenhuma suspeita fora do pequeno círculo dos envolvidos. Da mesma forma, o engendramento e o cálculo dos atropelamentos, tal como mostrados no filme, não soam lá muito convincentes. Ainda assim, vale a pena relevar esses senões em troca do que o filme de Ivan I. Tverdovskiy tem de melhor.

O quadro de uma Moscou moralmente decaída, tomada por um individualismo selvagem e onde até o sentimento maternal se corrompeu, lembra o que Andrei Zvyagintsev pintou em Sem Amor. Nesse cenário, Denis é um menino em busca de afeto que acredita inocentemente nas manifestações de carinho da mãe tresloucada. A cena em que ele a ajuda a urinar na rua é um primor de síntese nesse sentido. No seu mórbido ofício, Denis é, ao mesmo tempo, explorado e explorador, um cândido e um pequeno carrasco.

Esse perfil ambíguo é admiravelmente encarnado por Vlasenko, jovem ator de enorme elasticidade no corpo e nas expressões. A insensibilidade carnal de Denis pode ser vista como uma metáfora transversa para o entorpecimento espiritual da Rússia de Putin.

>> Jumpman está na plataforma Reserva Imovision.

Trailer legendado em inglês:

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