Fronteiras do experimental

Sylvio Lanna em “Nova Pasta. Antigo Baú”

Está começando hoje (segunda, 6/9) a sétima edição do DOBRA – Festival Internacional de Cinema Experimental. Em correalização da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio, os 53 filmes, organizados em nove programas, estarão disponíveis gratuitamente até 30 de setembro no site do festival. O release do evento destaca que “os trabalhos selecionados para a programação deste ano não apenas traçam um panorama da produção experimental contemporânea mundial, mas principalmente reforçam o caráter híbrido do cinema experimental, cujas raízes denotam uma relação estreita entre a mídia filme e as artes visuais”. Também será realizado o curso online e gratuito Cinema Experimental e Etnografia, além de bate-papos ao vivo.

Já tive oportunidade de assistir a três dos nove programas. Um deles se chama “Arqueologias Latinas – poeira e encontros” e reúne cinco curtas baseados em found footage. Curiosamente, o melhor foi realizado no Canadá por Cecilia Araneda, de uma família de emigrados chilenos. Desarquivar (Unarchive) fala de memória política e esquecimento a partir da Alzheimer de seu pai, o fotógrafo da família. A história de golpes militares do Chile não é a mesma desde que as ruas se encheram de câmeras.

Por sua vez, o brasileiro República do Mangue, de Julia Chacur, Priscila Serejo e Mateus Sanches, tira partido magistralmente da deterioração das películas de filmagens na antiga zona de prostituição do Rio. Os demais curtas desse programa são impenetráveis ou de fruição prejudicada pelas características técnicas. Em O Uruguai Não é um Rio (El Uruguay No es un Río), por exemplo, a tentativa de criar uma estética com os danos no celuloide e no áudio retirado de discos de vinil gera apenas um incômodo que beira o insuportável.

O programa “Modernidade urbana – linhas de rua, linhas de fuga”, com sete curtas brasileiros, traz o mais recente trabalho do veterano Sylvio Lanna, Nova Pasta. Antigo Baú. Como tem feito ultimamente, Lanna recupera e ressignifica imagens filmadas em décadas passadas e países distintos. O fluxo sai em busca da emoção contida nos olhares que se dirigem à câmera e nas músicas escolhidas com ouvido afetuoso. Uma viagem fascinante.

“Erêkauã”

Também apreciei muito o curtíssimo Erêkauã, de Paulo Accioly, animação com grafites de um menino “dançante” que me lembrou de longe o trabalho de Banksy; e Sethico, performance de Wagner Montenegro como o deus egípcio Seth levando abacaxis simbólicos a pontos de Recife marcados pela violência colonial. Vale a pena esperar pela revelação dos significados ao final do filme.

O mineiro Cidade Submersa, de Bárbara Lissa, fica na fronteira entre o experimental e o documental ao se referir às enchentes catastróficas que castigam Belo Horizonte regularmente. Cenas espantosas nesse curta. Igualmente subversivo em relação à prática do documentário, o curta 69, de Marcos Bonisson, se vale do conceito de “anarquivo” para desconstruir filmagens feitas no Brasil por um aviador francês em 1969. Curioso para quem não achar maçante.

Por fim, no programa “Vanguarda ou o cinema na linha de frente”, onde predominaram os temas políticos, encontrei uma obra-prima de humor crítico e fusão de animação com live action. O Mundo Mineral é uma sátira impagável a certos mitos da mineiridade. Anjinhos barrocos, oratórios, Inconfidência, Aécio Neves e a produção leiteira de Minas desenham o imaginário do estado entre a tradição e a modernidade, entre a simpatia, a caretice e a canalhice. O filme integra a série Atlas Superficcional Mundial, do premiado artista suíço radicado no Brasil que se assina Guerreiro do Divino Amor.

Imagens grandiosas da desertificação da Mongólia, causada pela extração mineral e as mudanças climáticas, enchem os olhos em Mestres da Terra (Masters of the Land), do belga Jan Locus. Do Chile vem O Entardecer (El Atardecer), de Martín Emiliano Díaz, coleta de ecos da repressão aos protestos de 2019, quando a polícia disparou sistematicamente contra os olhos dos manifestantes.

Confira a programação completa do Dobra aqui.

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