Mostra SP: “Radiografia de uma Família”

Fragmentos de uma revolução

por Paulo Lima

Em seu romance gráfico “Persépolis”, a ilustradora e cineasta Marjane Satrapi apresenta sua experiência da Revolução Iraniana de 1979. No caso de Marjane e sua família, a reação ao regime implantado pelos aiatolás provocou um impulso de dentro para fora. A artista terminou deixando o Irã para morar na Alemanha.

Mais incomum é a reação inversa, de fora para dentro. É o caso dos pais da cineasta Firouzeh Khosrovani que, morando na Suíça, retornaram ao Irã e se defrontaram com a revolução. É a própria diretora quem conta a história de sua família no documentário Radiografia de uma Família (Radiograph of a Family). O filme entrelaça memória coletiva e individual.

O Irã vivia sob o comando do Xá Reza Pahlevi quando o pai de Firouzeh, Hossein, deixou o país para estudar Radiologia em Genebra. Certo dia, Hossein pôs os olhos numa foto de Tayi e decidiu que se casaria com ela. Conhecendo Hossein igualmente por meio de fotos, Tayi aceitou o casamento e se mudou para a Suíça.

Lá, o contraste entre a educação europeizada de Houssein e a educação religiosa de Tayi veio à tona e se acentuou com a convivência. Essa primeira metade do documentário é narrada com o recurso de fragmentos de diversas imagens de arquivo, entremeadas por material familiar.

Os diálogos entre Hossein e Tayi são encenados pelos atores Soheila Golestani e Christophe Rezai. Coube à atriz Farahnaz Sharifi emprestar sua voz para a narração de Firouzeh Khosrovani.

Tayi engravida, e após o nascimento de Firouzeh o casal retorna a Teerã. A história adquire então tons dramáticos. Surgem no horizonte os ventos da revolução, que Tayi abraça com fervor fanático e em cujas fileiras passa a atuar como uma militante.

Sua guinada irá acentuar a ruptura e o abismo no casamento. “É como se vivêssemos em dois Irãs”, diz Firouzeh. Hossein permanece fiel à sua visão de mundo clássica e europeia, enquanto Tayi resolve sua crise de identidade mergulhando por completo na tradição e no sectarismo religioso. Passa a servir literalmente como um soldado fiel, pois se engaja em treinamento militar na defesa da Jihad, a guerra santa contra os inimigos do Islã.

Em seu filme que envolve memória e identidade, Firouzeh Khosrovani nos oferece, sob uma perspectiva inusitada, a visão dramática do seu pequeno microcosmo familiar e do que constituiu a Revolução Iraniana. No fundo, trata-se não só de um retrato afetivo dos seus pais, mas do fanatismo religioso.

Paulo Lima

>> Radiografia de uma Família está na plataforma Mostra Play.

 

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