O crepúsculo do macho no western

ATAQUE DOS CÃES no streaming

Aconselho quem assistir a Ataque dos Cães (The Power of the Dog) não esquecer as palavras iniciais de um narrador em off: “Que tipo de homem seria eu se não salvasse minha mãe?”. Quem diz isso é Peter (Kodi Smit-McPhee) a respeito da viúva Rose (Kirsten Dunst), que administra um pequeno hotel-restaurante.

Peter é um pós-adolescente de maneiras delicadas na rural e homofóbica Montana de 1925 (filmada na Nova Zelândia). Quando Rose subitamente se casa com o fazendeiro George (Jesse Plemons), mãe e filho vão cair no centro de uma rivalidade entre irmãos.

Enquanto George é requintado e civilizado, seu irmão Phil (Benedict Cumberbatch) é um cowboy grosseirão que reage mal à nova realidade da casa. Sobre esse pano de fundo de tensão e ressentimento, Jane Campion (O Piano) vai construir um western psicológico cheio de linhas divergentes, baseado em romance de Thomas Savage.

Embora o controle da direção seja impecável, numa constante atmosfera de apreensão, o filme atira em várias direções e acaba atingindo menos alvos do que se espera. O casamento de Rose e George, aparentemente róseo, envolve certa crueldade, exposta na cena em que o marido a obriga a tocar piano para o governador. Rose tem um hábito oculto que faz sua personagem mudar da água para o conhaque ao longo dos 126 minutos do filme, ao passo que George praticamente evapora da tela. Esses subplots não acrescentam grande coisa ao eixo central e, ao contrário, o diluem um pouco.

Fica com Phil e Peter, afinal, a responsabilidade por conferir maior substância à trama. Um segredo os aproximará perigosamente, numa relação embalada pelo culto de Phil a uma amizade do passado e por muitos elementos fálicos (cordas, estacas fincadas no chão, closes de quadris masculinos e de cavalos musculosos). Uma ideia complexa de masculinidade entra na berlinda até o desfecho relativamente surpreendente, sobretudo para quem se esqueceu da frase inicial de Peter.

>> Ataque dos Cães está na Netflix.

3 comentários sobre “O crepúsculo do macho no western

  1. Pingback: Oscars: o que escrevi sobre os indicados | carmattos

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