Festival do Rio: “Titane”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

Depois de ver Titane, sou levado a pensar que a paranoia da Covid afetou os cérebros de Spike Lee, Kleber Mendonça Filho e seus colegas de júri a ponto de darem a Palma de Ouro de Cannes a essa coleção de bizarrices. Titane tem posado de filme transgressor, mas, a meu ver, não passa de uma exploração chique das piores perversões das plateias contemporâneas.

Pois há quem goste de ver personagens infligindo sucessivas agressões ao próprio corpo depois de matar violentamente outras tantas pessoas. E Titane se contenta com isso. Não tem humor nem ousadia conceitual.

A sinopse do filme já correu mundo: Alexia (encarnada/metalizada pela intrépida atriz Agathe Rousselle) sofre um acidente automobilístico na infância e ganha uma placa de titânio no cérebro. Isso a faz desenvolver uma paixão sexual por carros, fetiche batido em filmes como Crash, Tetsuo e o brasileiro Carro Rei, este sim uma interessante variação do subgênero.

Alexia engravida do carro acidentado e expele graxa pelos orifícios do corpo. Para escapar da polícia após cometer vários assassinatos, ela enfaixa o tronco, assume a aparência masculina e entra na vibe auto-ilusória de um pai cujo filho desapareceu há vários anos. Vincent Lindon faz esse homem igualmente excêntrico, chefe de bombeiros masoquista e viciado em anabolizantes.

Parte da crítica internacional aprovou Titane com o argumento de que é uma fantasia perversa, da qual não se deve exigir coerência. Nada contra esse raciocínio, desde que a fantasia se sustente de pé e diga alguma coisa sobre o mundo. Mas o besteirol de Julia Ducournau não vai além de um pastiche de vários filmes-choque já vistos. Os clichês incluem a abertura que procura sensualizar o motor de um carro e, mais adiante, o procedimento inverso, quando a cirurgia de Alexia se assemelha a um conserto mecânico. Ok, entendemos a ideia-mãe…

A produção enche os olhos com planos-sequência elaborados, efeitos visuais escalafobéticos e elenco em ponto de bala (com direito a uma ponta do diretor Bertrand Bonello no papel do pai real de Alexia). Uma série de cenas de dança tenta somar ao estranhamento generalizado. Quando os créditos finais começaram a subir na tela, um vazio imenso tomou conta da minha sala. Talvez tenha faltado titânio no meu cérebro.

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