Festival do Rio: “A Viagem de Pedro”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

 

Valendo-se de uma lacuna historiográfica, Laís Bodanzky e seus corroteiristas concatenaram pesquisa e imaginação para recriar a viagem de Pedro I de volta a Portugal, em 1831, a fim de lutar contra o irmão Miguel pelo trono português. A Viagem de Pedro é um exercício ousado de encenação histórica que se vale da liberdade para penetrar na consciência do até há pouco imperador.

O filme não se passa no Brasil, nem em Portugal, mas a meio caminho no Oceano Atlântico, a bordo de uma fragata inglesa na qual se misturam membros da corte, oficiais, serviçais e escravos, numa babel de línguas e de posições sociais. Pedro (Cauã Raymond, produtor e idealizador do projeto) deixava o Brasil independente e era tido em Portugal como um traidor. Na viagem, acometido pela epilepsia e pela impotência sexual (talvez advinda da sífilis), ele tenta reunir forças para a guerra fratricida que se aproximava.

A convivência com os africanos na embarcação abre uma nova janela para o nobre à deriva. Seu autoritarismo para com as muitas mulheres que teve se transforma numa fixação paranoica depois que os búzios lhe avisam que a falecida imperatriz Leopoldina estaria cobrando a presença do marido no além-túmulo. Doenças, medo da morte e perda da masculinidade se somam para lançá-lo numa espiral de delírios. Diversos tempos de sua vida se tocam, levando-o a revisitar a infância, o casamento com Leopoldina (a atriz alemã Luise Heyer), o affair com Domitila de Castro (a portuguesa Victoria Guerra) e imaginar discussões com o irmão (o português Isac Graça).

Laís se atira com uma coragem e uma competência invulgares nessa “viagem” ao inconsciente. A estrutura do filme é fragmentária o suficiente para quebrar a linearidade, mas guardando sempre uma coerência que nos faz compartilhar plenamente da exaltação do personagem. O movimento do navio e as tempestades se confundem com o desvario de Pedro. As angulações descentradas da câmera dentro da tela quadrada, a excelência da iluminação de época do espanhol Pedro J. Márquez e da direção de arte de Adrian Cooper, assim como a escala razoavelmente ambiciosa da coprodução luso-brasileira, impressionam sem soarem grandiloquentes.

Vale ressaltar o majestoso elenco negro reunido em papéis importantes, que inclui Izabél Zuaa como a escrava Dira, Sérgio Laurentino como o chefe de cozinha e babalorixá e Welket Bungué como um contra-almirante.

A Viagem de Pedro não quer ser uma lição de história, mas uma hipótese crítica a respeito de um homem vacilando entre o poder político e a derrocada humana. É Pedro I entre o modelo almejado de Napoleão com seu cavalo empinado e a degradante evidência de um pênis inerte.

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